Do doce ao azedo trilhamos o caminho

“Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão. Acudiram três cavaleiros, todos os três chapéus na mão. O primeiro foi seu pai. O segundo, seu irmão. O terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão. Terezinha levantou-se, levantou-se lá do chão e sorrindo disse ao noivo: eu te dou o meu coração. Da laranja, quero um gomo. Do limão, quero um pedaço. Da morena mais bonita, quero um beijo e um abraço”. 
“Terezinha de Jesus” é uma cantiga popular. Lembrei-me dela, ao ouvir a narrativa de uma pessoa descrevendo uma grande queda que foi ao chão, literalmente, após resolver divorciar do esposo com muitos anos de convivência. Precisou de resgate, hospital, suturas, raios-X, dentista, etc. Há quedas-mudanças-transformações durante nossa trajetória de vida que nos levam a grandes quedas ao chão. Muitas vezes acabamos tendo muitas dificuldades às mudanças, perdas, separações e lutos. 
Em um casamento duradouro, submetido à separação, há necessidade de certo tempo para decantação. Perde-se a identidade do par para buscar uma nova, individual. Perde-se muitas vezes o chão e o equilíbrio. Permanecemos sem bússola. O luto de toda uma rotina intersubjetiva necessita de tempo relativo para ser elaborado. 
Como sou psicanalista necessito também, fazer análise. Já tive vários analistas muito queridos, em minha trajetória. Em São Paulo, faz parte da formação para psicanalista, fazer análise com analista didata. Quando cumprimos, cinco anos de análise didática (quatro sessões semanais), que compõem o tripé da formação psicanalítica, temos a opção de “alta”, se assim preferirmos, do (a) analista. Ou ainda permanecer, mas diminuindo de quatro para duas sessões, acordando assim, com a analista. Resolvi diminuir para duas. 
Muitas vezes não pensamos em como uma pequena mudança pode significar uma grande mudança. Acredite se quiser, significou muito para mim. Ao “finalizar a análise didática”, no mesmo dia, caí na Rua Alameda Santos e da queda fui ao chão e de boca. Acabei sendo socorrida por pessoas maravilhosas. Separações significativas muitas vezes nos levam a retroceder por algum tempo, dando a impressão do desconhecimento em dar passos.  
Desde que somos concebidos estamos sujeitos à transformação. Passamos por várias mudanças, mas tememos seguir sozinhos os caminhos naturais à autonomia e independência. Do doce ao azedo, trilhamos o caminho. Deixamos para trás os pais, irmãos, enfim, a família para constituirmos com o noivo, outra (nossa) família. Separação dói. Quando somos crianças e percebemos que a mãe é casada com o pai, dói. Temos que fazer a travessia do complexo de Édipo; “A mãe é do pai e eu sobrei”. Em ludoterapia, as crianças expressam nos desenhos seu sofrimento. 
A cantiga “Terezinha de Jesus” tem simbolismo implícito de travessia entre a ingenuidade e a sensualidade. Como dói a existência do terceiro. Mas é preciso. Experimentamos tempo de fusão, simbiose, individuação e comensalismo em nossa evolução. Há tempo para separações, escolhas e novas configurações. Nessa estrada também há escolhas de ataque ao vínculo. Como dói conviver com o outro quando, no narcisismo, só consigo ver a “mim” mesmo. Não quero vincular-me com o outro. Só tenho olhos para o meu umbigo. Não quero evoluir de forma psíquica. 
Assim seguimos todos. Em uma busca constante por terra firme. Mas há quedas significativas que nos colocam no caminho da luta por ideais, escolhas, mudanças, independência e autonomia.
 

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