Ecumenismo e sincretismo no espaço lusófono

António Montenegro Fiúza

A lusofonia é toda ela feita de simbolismos opulentos e profundos, com significados acrescidos, a cada novo país e a cada novo indivíduo que se conhece. Se, quando se comunica, trocam-se informações, dados e símbolos; quando dois indivíduos se encontram, independentemente da sua origem ou bagagem cultural, enriquecem-se e crescem intelectualmente, pois cada signo passa a ter (pelo menos) mais um significado; podemos apenas imaginar – e nunca, verdadeiramente, entender – a grandeza e a dimensão da riqueza cultural deste espaço linguístico.
Da Península Ibérica, à Costa Ocidental Africana, da América do Sul ao Oceano Índico, na plenitude do espaço lusófono, vários são os povos, as crenças e as manifestações artísticas e culturais. Das mais próprias e específicas, às comuns, desde as ações do quotidiano e suas representações, à adoração às divindades, cada gesto e cada palavra, traz em si uma semiose e uma pragmática que enriquecem o espólio cultural dos outros povos e é por eles influenciado. 
Dos animistas aos cristãos, passando pelos hindus e pelos muçulmanos, a aproximação dos vários povos e a irmandade criada entre si, pelos laços de uma língua comum, logrou alcançar um ecumenismo sui generis e que pode ser definido como o projeto de gerar algum tipo de aproximação entre povos, grupos ou tradições atrelados a diferentes religiões.
Sem desfazer a riqueza e a complexidade da religião alheia, mais do que a união das diferentes religiões, a lusofonia torna-se o espaço de vários sincretismos, manifestações culturais e religiosas que se revolvem à volta de mais do que uma religião, promovendo uma mistura tão homogénea que, por pouco, não se pode separar uma e outras.
Disso são exemplos: as festividades juninas – onde se comemoram o solstício de verão e onde os orixás são exaltados nas mesmas datas que santos católicos; nas festividades do São João, em algumas paragens, onde se misturam o rufar dos tambores e as danças extremamente sensualizadas da comemoração da fertilidade com as solenidades cristãs; o carnaval, com caráter altamente católico, ligado ao início da Quaresma, mas que se encontra povoado de simbolismo africano.
Falar do espaço lusófono é, indubitavelmente, falar de ecumenismo e de sincretismo; de simbologia e de semiótica; esta junção de povos que resulta numa profusa riqueza.
 

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