Escrever para quem?

Giselle Tomé

CRÔNICA - Giselle Tomé

Data 14/03/2026
Horário 06:00

Por que você escreve crônicas? Alguém te responde? Essas perguntas me foram feitas há alguns dias e comecei a refletir sobre elas. Escrevo para ser lida, para compartilhar experiências, para organizar melhor minhas ideias, para congelar uma parte do tempo, para repensar. É meu olhar sobre o viver. É uma troca, ou pelo menos, deveria ser, se alguém ler, é claro.
Se alguém me responde? Ah, aí está o xis da questão. Nem sempre... E esse vazio gera dúvidas. Será que fui clara? Será que atingi alguém? Por que não há retorno? Hoje se tem a sensação de que ninguém mais lê e ninguém mais escreve. Será mesmo? 
Os números recentes mostram que a questão é mais complexa. Uma pesquisa do Instituto Pró-Livro, divulgada pela Agência Senado em 2025, aponta que o hábito da leitura entre os brasileiros está em queda. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, 53% da população se declara não leitora. Hoje, cerca de 93,4 milhões de brasileiros são considerados leitores (aqueles que leram ao menos um livro nos três meses anteriores), o que corresponde a 47% da população. Em 2007, esse número era maior: 55%.
Além da diminuição do número de leitores, o estudo também alerta para algo ainda mais preocupante: a dificuldade crescente de concentração e compreensão de textos. É o avanço do chamado analfabetismo funcional: pessoas que reconhecem letras e números, mas encontram dificuldades para interpretar textos simples e usar a leitura no cotidiano.
Diante disso, talvez não seja correto dizer simplesmente que ninguém mais lê. Talvez o que esteja em crise seja outra coisa: o tempo, a atenção, a disponibilidade para a leitura mais demorada. Somos diariamente bombardeados por informações vindas de todos os lados. O nosso cérebro não suporta tanta demanda. Estamos mais seletivos e, muitas vezes, menos reflexivos. Estamos sempre correndo, sempre atarefados demais. 
Mas o que move o autor é justamente o retorno. É preciso coragem para se expor, para falar o que se pensa, para tirar algo da nossa intimidade (no caso da crônica) e levar a público. Hoje, mais do que nunca. 
Talvez por isso eu continue escrevendo. Porque, mesmo quando o silêncio parece grande, sempre existe a possibilidade de que, em algum lugar, alguém tenha parado por um instante e lido. E talvez, nesse pequeno gesto invisível, uma semente de pensamento tenha começado a germinar.

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