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Família relembra perda aos 26 para a doença

PRUDENTE - THIAGO MORELLO

Data 15/09/2020
Horário 07:40
Cedida - Leandro, como era mais chamado, tinha uma rotina hospitalar intensa Foto: Cedida - Leandro, como era mais chamado, tinha uma rotina hospitalar intensa

Como você mede a vida de uma pessoa? Em verdades que ela aprendeu? Em momentos em que chorou? Ou o jeito que morreu? Há quem diga que é possível verificar esse tamanho através da quantidade de outras pessoas que ela tocou ou na profundidade que esse contato ocorreu. Certo é que, na ausência definitiva, a morte, talvez fique mais claro entender a importância que temos uns aos outros. E talvez seja por isso também que a dor demore a passar ou nem passe. Há praticamente quatro semanas, Cleonice Pereira Real, 47 anos, tem enfrentado essa angústia. Ela, que perdeu o filho para a Covid-19, a vítima mais jovem de Presidente Prudente, tenta majorar o tamanho disso tudo.
Mas se é difícil medir o tamanho da vida de alguém, é mais difícil ainda de chegar ao tamanho sofrimento que existe ao perder uma vida que lhe faz sentido. Mas no caso dela, a vida do filho, pelo menos fisicamente, foi equivalente a pouco mais de 26 anos. E parece que cada dia vivido dentro desses anos começou a passar na mente, quando se deparou com o último, pelo menos é dessa forma que ela se sentiu.
“Meu filho sofreu muito a vida toda. Era um menino que mesmo sentindo dor, mesmo não estando bem, ele sempre foi guerreiro. Eu tenho uma imagem muito boa do meu filho”, lamenta. Everton Leandro Galindo, 26 anos, filho da Cleonice, é uma das vítimas da Covid-19 em Presidente Prudente.
No sofrimento, a mãe explica a condição do filho, que há anos sofria de insuficiência renal crônica, o que lhe colocou em uma vida de casa-hospital hospital-casa, na necessidade de fazer hemodiálise. E quando a pandemia chegou à região, e mostrou a potência e a gravidade que tem, Cleonice destaca que essa rotina hospitalar causou uma tremenda preocupação.
E nesse cenário, nos últimos dois meses, o que mais temia ocorreu: ele foi diagnosticado com a doença e a internação veio. A mãe narra que ele precisou ser direcionado à UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas não precisou ser intubado. “Isso era uma preocupação dele. Quando ele melhorou e voltou para o quarto, me dizia que pensou que nunca mais iria me ver. E eu dizia pra ele que jamais o abandonaria”, lamenta.
Mas aí os sintomas voltaram, e de certa forma, mais severos. “Meu filho começou a sentir falta de ar. Dizia que não ia aguentar, porque não estava conseguindo respirar mais. Eu fiquei desesperada e chamei toda a equipe médica. Ele pedia muito pra mim que não queria ser intubado, porque ele viu muitos amigos morrerem dessa forma. Era o maior medo dele”, conta.
Mas não havia outra opção naquele momento, e Cleonice detalha que o filho precisou ser intubado. “E foi a última vez que eu vi meu filho vivo. Foi a última vez que eu pude segurar sua mão em vida. Eu chorava desesperada dizendo: ‘Meu filho, mamãe te ama tanto’. E ele dizia: ‘Mamãe, eu também te amo’. Foi a última coisa que eu ouvi do meu filho”, narra.
Até que na madrugada do dia 19 de agosto, o celular dela tocou, às 2h, momento em que ela diz ter tido a certeza que Deus tinha o levado. “Eu mal pude me despedir dele. Mas meu filho foi um anjo na minha vida. Eu sinto muita falta dele”, diz.

O filho das Cleonices

O que fica claro é que Everton era amado por muita gente. E sempre foi cuidado por todos. E não apenas por uma mãe, mas por duas. E não apenas por uma Cleonice, mas duas. Sua tia, Cleonice Galindo, 64 anos, conta que pegou a guarda dele quanto ele tinha 12 anos e o cuidou por 13. Por ambos serem grupos de riscos, tiveram de ser separados, nos últimos meses, como uma maneira de evitar o possível contágio da doença.
“Era um garoto cheio de sonhos e amava trabalhar com internet. De uma inteligência extraordinária, pesquisava tudo o que se referia a sua doença [insuficiência renal]. Era amado por todos, brincalhão e feliz! Dizia sempre: tudo o que estou passando é um propósito de Deus, ninguém vai viver o que estiver destinado para mim”, compartilha.
Hoje, ambas as Cleonices, assim como toda a família, além da saudade, dividem um questionamento sobre a Covid-19 que transcende a todos aqueles que acreditam e se importam com a situação: “Até quando isso vai durar?”.

Foto: Cedida

Cleonice e os filhos Hérculis e Leandro (que morreu aos 26)

 

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