No painel “DNA feminino da casa”, sob o tema “O começo de tudo”, Liliane Suguisawa, diretora técnica da DGT Brasil e professora de pós-graduação, iniciou sua apresentação ontem de manhã na Feicorte (Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne) 2026, destacando sua trajetória em Presidente Prudente e sua ligação histórica com a feira. Na oportunidade, a palestrante enfatizou o papel crescente e o protagonismo das mulheres no agronegócio — que, embora ainda sejam minoria, expandem seu espaço no setor — e agradeceu à organização do evento por priorizar o debate sobre a qualidade da carne.
Apesar de o Brasil figurar entre os maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo, o país ainda enfrenta o desafio de receber um valor menor por tonelada em comparação com concorrentes como Estados Unidos, Argentina e Uruguai.
Segundo Liliane, essa disparidade de preço é reflexo direto da qualidade sensorial do produto. Na escala de marmoreio de 0 a 10, a média da carne brasileira situa-se em torno de 1, enquanto os EUA registram média de 5 e o Japão alcança o topo com 10. Essa diferença impacta diretamente a maciez e a experiência gastronômica do consumidor.
JANELA DE OPORTUNIDADE: ELEVAR
MARMOREIO A PATAMARES COMPETITIVOS
A meta técnica defendida é elevar o marmoreio médio do rebanho brasileiro para a faixa de 3,5 a 4. Nesse patamar, a maciez proporcionada pela gordura entremeada torna-se evidente, abrindo as portas para uma melhor remuneração no mercado internacional. “Marmoreio não entra via comida”, afirmou Liliane.
A especialista reforçou que o caminho central para essa transformação é o melhoramento genético, e não apenas o manejo alimentar, tornando a seleção dos indivíduos certos o fator determinante para o sucesso.
ULTRASSONOGRAFIA DE CARCAÇA
COMO ALAVANCA DE TRANSFORMAÇÃO
Para viabilizar essa seleção, destaca-se o uso do "software BIA" — tecnologia auditada e regulamentada nos EUA. O sistema coleta nove imagens e seis medidas por animal, gerando um diagnóstico completo que avalia a produção de carne, a precocidade de abate e atributos de qualidade (marmoreio, espessura de gordura e área de olho de lombo).
Resultados práticos identificados pelo software:
Quebra de paradigmas no Nelore: Identificação de exemplares da raça Nelore com rendimento de carcaça de 60% e marmoreio de até 4,5, desafiando o estigma de que os zebuínos produzem apenas carne do tipo commodity.
Ganhos de produtividade: Enquanto a referência americana atinge 29 arrobas antes dos dois anos de idade, a média brasileira ainda se posiciona em cerca de 18 arrobas, revelando um amplo potencial de avanço por meio da seleção genética.
CONFRARIA DA CARCAÇA
NELORE E AVANÇO INSTITUCIONAL
Criadores vinculados à ABCZ (Associação Brasileira dos Criadores de Zebu) já incorporam a ultrassonografia como critério decisivo na escolha de touros. O objetivo é construir um “Nelore diferente por dentro”, mantendo o padrão racial e agregando alto rendimento, precocidade e marmoreio.
Em linha com essa evolução, o PMGZ (Programa Nacional de Melhoramento do Nelore) incluiu, em 2025, a área de olho de lombo e a espessura de gordura em seu índice de seleção, sinalizando um alinhamento estratégico entre os critérios de pista e as exigências da indústria.
INTEGRAÇÃO DO CEIP E EXPANSÃO
DA AGENDA DA QUALIDADE
O rebanho do Ceip (Certificado Especial de Identificação e Produção) da Agropecuária Maragogipe, liderada por Wilson Broca, também adicionou área de lombo, gordura subcutânea e marmoreio às suas DEPs (Diferenças Esperadas de Progenitura). O movimento promove uma convergência de forças onde o gado de registro e o gado comercial "falam a mesma língua" em prol da evolução da carne nacional.
A resposta da indústria a esse movimento já é palpável. A unidade da JBS em Pedra Preta desenvolve um projeto piloto que remunera carcaças com base nas mesmas métricas obtidas pela ultrassonografia (área de olho de lombo, espessura de gordura subcutânea, marmoreio e formato do contrafilé).
BALANÇO DO PROJETO PILOTO:
92% de premiações obtidas em lotes selecionados.
Bonificação de até 17% no valor da arroba para carcaças com alto marmoreio.
Expansão anunciada: O programa será estendido para mais seis unidades da companhia, visando rastrear carne de alta qualidade e disputar prêmios de preço superiores no mercado global.
FEICORTE COMO VITRINE
TECNOLÓGICA E MULTIRRAÇAS
A Feicorte consolida-se como vitrine tecnológica ao reunir 16 associações de raças bovinas e apresentar o marmoreio nível 4 como o novo padrão aspiracional do setor. O evento reforça que a qualidade superior é fruto de tecnologia e processos bem estruturados, e não um atributo exclusivo de uma única raça. Exemplos como Tabapuã, Guzerá, Gir, Bonsmara, Brangus e Montana demonstram capacidade de atingir padrões elevados através de mensuração e seleção rigorosas.
VALIDAÇÃO INTERNACIONAL
E MUDANÇA DE PARADIGMA
Os avanços do Brasil já colhem reconhecimento no exterior. Tom Perkins, referência norte-americana em ultrassonografia de carcaça, declarou recentemente que o principal gargalo histórico da pecuária brasileira — a qualidade da carne nos zebuínos — “foi consertado”. Além disso, o Fórum de Genética na Argentina convidou Liliane Sousa para detalhar a implementação do projeto no Nelore, que antes era considerado um desafio intransponível para o desenvolvimento de marmoreio.
MENSAGEM FINAL: A QUALIDADE
DA CARNE BRASILEIRA JÁ DEU CERTO
“O começo de tudo começa na genética”, sintetizou Liliane, ao defender a multiplicação acelerada dos processos já validados no campo e na indústria. Para os pecuaristas, a mensagem final é de otimismo e rentabilidade, apontando para um caminho claro: medir o rebanho por dentro, selecionar os indivíduos corretos e padronizar a entrega de qualidade para o mercado.

LILIANE SUGUISAWA: “CAMINHO É O MELHORAMENTO GENÉTICO”