Fique em paz irmão!

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 04/07/2021
Horário 05:45

A vida pode ser pura arquitetura ou pode ser cimento e concreto armado. O destino da vida é como uma teia de aranha, que vai tecendo os fios da ilusão. Claudio Paulino da Silva nasceu literalmente no Estádio do Parque São Jorge em Presidente Prudente. Me disse: Persio sou realmente um filho do Parque São Jorge. Seu pai Mário Luiz da Silva foi um excelente policial, morreu cumprindo seu duro dever, Claudio tinha apenas 7 anos de idade. Seu avô, o lendário Mané Binga, assumiu o lugar do seu pai. Seu Mané deu a vida cuidando do Parque São Jorge, como um pai cuidando de um filho, quando venderam o estádio seu avô não foi reconhecido como um homem honesto e um fiel funcionário, morreu esquecido e muito pobre. 
A honestidade muitas vezes não é valorizada, ela desaparece diante da insensatez humana. Claudio ficou indignado e sentiu pela primeira vez que a vida é injusta para aqueles que trabalham honestamente.  Teve que se mudar para a Vila Brasil. Aos 15 anos, estava inserido no mundo dos esquecidos. A Gangue da Vila Brasil era seu castelo e se sentia poderoso. Se casou nessa idade e com um filho para criar. Começou a trabalhar na Drogadada que o convidou para trabalhar em São Paulo. 
Aos 25 anos, Claudio estava em São Paulo e lá conheceu uma mulher. Com o tempo ela foi pegando muita confiança nele e conta o que fazia: Eu falsifico dinheiro e era uma exímia falsificadora. Naquela época não havia muito rigor e nem investigação. A teia da aranha estava atraindo Claudio. As notas eram perfeitas, a ambição se tornou uma força incontrolável e Claudio lembrou do avô e de seu pai,  o sistema não valoriza os homens de boa vontade e  sentiu a oportunidade de ganhar muito dinheiro. Movido pela ambição e pela indignação, Claudio se fez respeitar e se torna um craque nesse ramo marginal. Nunca usou da violência. 
A demanda era muito grande, chegava a entregar de 200 a 400 pacotes de R$ 5 mil por dia. Cada pacote era vendido a R$ 1 mil. Muito dinheiro que entrava todos os dias, ficou conhecido como o Barão das Notas Falsas. Viveu todo os prazeres que o dinheiro podia comprar. Não ligava para o futuro, queria engolir o mundo como num gole de cerveja. Não havia fiscalização e as autoridades não estavam focadas, mas tudo tem um fim. 
Muitas notas falsas inundam o mercado e uma reportagem no “Jornal Nacional” desperta a atenção da Polícia Federal. Foram dois anos de investigação e o Barão das Notas Falsas é pego. Estava preso na teia da aranha como um inseto. Todos os seus bens foram perdidos, advogados, governo ficaram com todo o seu patrimônio ilegal. Ficou preso e rodou por várias penitenciárias. Conheceu a complexidade do sistema prisional do Brasil. Ficou em celas de 18 a 20 pessoas. Pensava sempre no seu querido avô e no exemplo do seu pai. 
Na prisão, o que você mais tem é o tempo, disse ele. Mas o que fazer com o tempo? Sentia muitas saudades da família. O que mais deixou ele triste foi presenciar o abandono dos familiares, já não era mais o Barão das Notas Falsas. O que mais aprendeu na prisão foi a solidariedade. Todos têm que dividir o que tem e todos são iguais, sejam os mais  perigosos ou não, todos têm que se respeitar. Muitos saem sem nada e muitos morrem de volta ao crime. Tem que ser muito forte e tentar fazer o melhor possível para enfrentar a solidão que é muito forte como um aperto de uma cobra sucuri.  
Claudio saiu da prisão e largou o mundo do crime. O conheci e admiro sua história de vida, pois é uma história de superação. Tem uma borracharia na Avenida Tancredo Neves na zona leste e vive honestamente como seu avô e seu pai. É muito respeitado por todos. Fica chateado porque a zona leste sofre uma discriminação injusta da sociedade. Perguntei para ele qual foi a maior lição que ele aprendeu, vivendo tudo que viveu. Ele me respondeu: Estou em paz com o meu passado Persio, mas quero que escrevas que a grande lição que aprendi é que o "crime não compensa", em pessoas da minha origem social e econômica, mas infelizmente para pessoas com poder político e financeiro o crime acaba compensando. Pode parecer clichê, mas é a pura realidade. Nos despedimos e ele me disse: "Fique em paz irmão"!

 

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