Foram quatro paradas cardíacas e ele entendeu quem é Deus

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 16/12/2025
Horário 05:30

 – Eu pensei que estava morto. Ou melhor, não pensei nada. Só senti mesmo uma dor no peito, como se recebesse um pancada muito forte. Quatro vezes.

– A enfermeira disse que você lutou muito nas arritmias também. Disse que agarrou a mão dela e falou algo.

– Não me lembro, mas provavelmente gritei por Deus. E não foi um pedido educado. Foi raiva mesmo. “Por que isso está acontecendo?” E depois, quando a dor apertou de novo, virou um lance de desespero. “Não agora. Por favor, preciso resolver vários assuntos ainda.”

– Os socorristas foram incríveis, não? Aquelas três pessoas não te largaram.

– Herói, que fala, né? Mas sabe o que a minha filha contou hoje? Que enquanto faziam massagem cardíaca na rua, um senhor idoso parou, tirou o chapéu e ficou rezando. A dona do mercadinho acendeu uma vela. E no prédio em frente, uma mulher que eu nem conheço colocou água benta na janela.

– Gente que você nunca viu.

– Gente que eu nunca vi. E no hospital foi pior… ou melhor. A equipe médica, claro. Mas a faxineira que passava no corredor sempre fazia o sinal da cruz quando me via. O segurança da entrada, que é evangélico, disse que toda madrugada orava pelo “moço do quarto 12”. E os meus parentes que rezam, bombardeando o céu.

– E você acha que foi isso? A soma das orações?

– Eu acho que a medicina me salvou. Os remédios, os choques, a habilidade dos doutores. Isso foi a mão concreta. Mas, sinceramente, o que alimentou essas mãos? Por qual razão eu sobrevivi a quatro paradas, quando uma já seria suficiente? Por que o coração decidiu voltar a bater no quarto choque?

– O que você está dizendo?

– Estou dizendo que eu sempre pensei em Deus como um ser que deveria evitar tragédias. “Deus, não deixa o avião cair.” “Deus, não deixa eu ficar no vermelho” “Deus, não deixa eu ser assaltado.” E quando o avião não cai, eu agradeço. Quando consigo fechar as contas, agradeço”. Mas também, quando fui assaltado, lembro que me revoltei. “Onde você estava, Deus?”

– E agora?

– Agora eu vejo diferente. Deus não evitou as quatro paradas cardíacas. Elas vieram. O problema veio. A queda veio. A tragédia bateu à porta porque o que eu tenho é genético e eu piorei tudo com meus hábitos ruins. Mas, hoje ficou claro que quando as pessoas começaram a rezar, quando eu comecei a rezar lá na UTI, entre a sedação e a dor… algo mudou. Não o fato em si, mas a consequência do fato. Não foi o vento que parou, foi o abrigo que apareceu e não me deixou ser levado.

– Você não para de olhar para aqueles pedreiros enquanto fala. Por quê?

–Olhe para eles. Suando, levantando peso, arriscando-se no andaime. Deus não vai impedir que um tijolo caia. As leis da física seguem firmes. Mas, e se a oração de alguém fizer o cara olhar para cima na hora certa? E se fizer o pé não escorregar dois centímetros para o lado, longe da borda? E se a oração de um dos filhos der a ele um segundo de atenção extra?

– Então você acha que Deus não é um mágico, é um coautor?

– É um transformador de finais. A matéria-prima da tragédia está aí: um coração que falha, um tijolo que solta, um gene que muda, uma célula que começa a crescer de forma desordenada e se torna cancerígena. A oração e a fé não apagam o fundamento, mas tecem uma rede diferente por baixo e podem alterar o resultado. Não pelo milagre espetacular, mas pela corrente invisível de atenção, de amor, de força que é enviada para dentro do caos.

– E por que você acha que Deus não faz isso sempre? Sem precisar que rezem?

– Talvez porque Ele não seja um ditador. Talvez porque Ele queira que a rede seja tecida por nós também. Que a minha sobrevivência não seja apenas um decreto Dele, mas a resposta Dele a um coro de vozes, inclusive a minha, fraca e raivosa, que pediu por ela. É uma parceria. Sim, uma cocriação.

– Então essa foi a lição da UTI?

– A lição foi que eu posso ter um coração fraco, mas nunca estou sozinho dentro dele. Enquanto houver alguém rezando do lado de fora e enquanto eu tiver fôlego para sussurrar uma oração, o final da história ainda será escrito. E Deus é especialista em reescrever finais. Olha só. Eu estava morto. E agora estou aqui, numa tarde de terça-feira, vendo pedreiros construírem algo. Eles estão levantando uma parede. Eu estou aqui, reassentando os tijolos da minha fé. Ambos estamos trabalhando. Ambos suando. Ambos vivos.
 

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