Guerra na Ucrânia: em hospital de Moscou, militar prudentino aguarda alta para voltar ao front

Antigo morador do bairro Ana Jacinta, Rodolfo MacGyver integra tropa pró-russa e se recupera de ferimentos após ataque pelo exército rival

PRUDENTE - DA REDAÇÃO

Data 01/06/2022
Horário 13:44
Foto: Arquivo
Rodolfo rompe silêncio sobre atuação em conflito após passar período incomunicável
Rodolfo rompe silêncio sobre atuação em conflito após passar período incomunicável

Quando teve início a guerra da Ucrânia com a Rússia, no dia 24 de fevereiro deste ano, a reportagem de O Imparcial procurou o militar prudentino Rodolfo Cunha Cordeiro, conhecido como Rodolfo MacGyver, para repercutir com o combatente a deflagração do confronto. Na época, as mensagens enviadas via WhatsApp nem chegaram a ser recebidas. Rodolfo, no olho do furacão, estava incomunicável.

Em 24 de maio, exatamente três meses após a invasão russa, o prudentino procura espontaneamente a reportagem: uma mensagem enviada pelo Instagram sinaliza o interesse de Rodolfo de relatar a sua situação na guerra. A disponibilidade tem motivo: ele se encontra em recuperação em um hospital de Moscou, capital da Rússia, ou como define em sua mensagem: "de castigo".

Sofreu múltiplas perfurações na perna, coxa, costas e abdômen. Alguns disparos deixaram balas alojadas, outras entraram e saíram, mas nada que preocupe o militar, que fica satisfeito por não ter sido atingido em alguma artéria ou órgão vital.

"Perdi muito sangue, eu mesmo fiz os primeiros socorros sob tiros de artilharia. Na hora, não sentia dor, apenas queimava. O helicóptero conseguiu me evacuar para a Rússia. Já estou quase pronto para retornar. Os médicos não me dão alta logo".

Depois dessa primeira comunicação e o consentimento para uma entrevista a O Imparcial, novo silêncio. Rodolfo volta a falar neste primeiro de junho, quando começa a responder às perguntas da reportagem. Ele ainda não recebeu alta e não há previsão para retornar ao front.

Sem alarde

Rodolfo é nascido em Prudente e antigo morador do bairro Ana Jacinta. Em 2014, deixou o cargo de agente de segurança e o curso de Direito na Unoeste (Universidade do Oeste Paulista) para embarcar por conta própria em uma viagem para Donbass – como é chamada a região do extremo leste da Ucrânia. Em um contexto geográfico, Donbass engloba a autodeclarada República Popular de Donetsk, onde o aventureiro passou a integrar as Forças Armadas.

Já habituado à intensa crise política e econômica naquele território, ele afirma ter recebido sem alarde a declaração de guerra, considerando que faz parte de um grupo de propósito especial apto a executar qualquer tipo de missão em qualquer tipo de terreno e clima. "Todos nós sabíamos que uma hora ou outra a guerra seria inevitável", enfatiza.

Sua missão no conflito tem sido por meio de missões especiais de reconhecimento, sendo a principal tarefa na área de inteligência. "No começo do conflito, com o inverno, foi mais desgastante para a tropa, mas agora o clima está melhor. Temos mais mobilidade em campo. Apesar da Ucrânia estar utilizando armas proibidas, isso não baixou o moral da tropa", relata.

Perguntado sobre os principais desafios enfrentados por seus companheiros, ele destaca, em primeiro lugar, a necessidade de manter a integridade dos civis locais, sendo o principal objetivo desmilitarizar as regiões independentes. "Infelizmente, ainda há muitos grupos neonazistas combatendo na Ucrânia, utilizando a população civil como escudo e se escondendo no meio dela", narra.

Ataque e recuperação

A respeito dos ferimentos, ele relembra que, durante a operação especial de inteligência, houve "um forte ataque por parte da Ucrânia", "que começou a utilizar sistema grande de mísseis e morteiros durante o dia".

"Estávamos sem comunicação de rádio. Quando nos deslocamos para outra região para buscar um bom sinal, encontramos um grupo de operações especiais da Ucrânia em maior quantidade, a cerca de 350 a 400 metros de distância. Nesse momento, começaram os disparos", rememora. "Logo em seguida, deram as coordenadas da área e teve início o ataque de mísseis Uragan em nossa direção. Os mísseis Uragan contêm bombas de fragmentação que são proibidas por acordos internacionais. Elas lançam dezenas de bombas menores em direções aleatórias quando se aproximam do alvo", completa.

Rodolfo conta que ele e seus companheiros ficaram abrigados, tentando conseguir sinal de rádio, mas sem êxito. Na oportunidade, pensou que seus tímpanos haviam estourado, pois não conseguia mais escutar. Os adversários, então, começaram a avançar em sua direção, efetuando disparos. Em contrapartida, a tropa de Rodolfo lançou disparos de supressão, racionando munição.

"Após alguns minutos, fomos atacados por um sistema automático lançador de granadas chamado AGS. Foi bem tenso. Então, notei que estava ensanguentado. Não sabia o que tinha me atingido. Enquanto os outros dois realizavam disparos, eu fazia os primeiros procedimentos com torniquete e enfaixando os ferimentos. Pedi para os outros dois soldados buscarem um lugar mais seguro e tentarem comunicação com rádio enquanto eu efetuava alguns disparos para evitar que o grupo se aproximasse. Mais tarde, o grupo conseguiu sinal de rádio e solicitou resgate", recorda.

Houve uma espera de três horas até a chegada de homens de outro batalhão. A esta altura, Rodolfo já tinha perdido muito sangue. O grupo saiu em alta velocidade em uma caminhonete em direção a uma zona de pouso onde havia um helicóptero os aguardando. Rodolfo foi conduzido para a Rússia, onde conta que recebeu "o melhor tratamento possível".

Agora, diretamente de um hospital em Moscou, ele acredita que a situação deve estar perto de um fim.

"Estamos fartos. Esperamos oito anos para a Rússia reconhecer as regiões independentes como repúblicas autônomas da federação russa. Desejo que acabe logo e todas as pessoas de Donbass possam viver normalmente".

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