Inversão da pirâmide alimentar e do bom senso

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Mesmo que você não saiba e esteja tomando ciência da pirâmide alimentar apenas hoje, sua dieta (se for adequada em qualidade e quantidade) pode ser acomodada e representada numa pirâmide no formato daquelas que existem no Egito e daquele mais moderno no Museu do Louvre em Paris, com a base mais larga e o cume mais fino. 

PIRÂMIDES
A primeira pirâmide alimentar foi elaborada nos anos 1970 por um comitê de saúde criado pelo governo da Suécia. Mais tarde, na década de 1990, foi parcialmente modificada pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e atualizada no Brasil em 1999. Essas pirâmides saudáveis têm quatro níveis. Na base ficam os alimentos ricos em amido, carboidrato importante para saúde. No segundo nível ficam os vegetais em geral. No terceiro nível ficam as fontes de proteínas de boa qualidade (carnes, laticínios e leguminosas). No topo ficam os alimentos que podem ser dispensados ou consumidos eventualmente. As quantidades consumidas são proporcionais à largura da pirâmide em cada nível.

INVERSÃO (DO BOM SENSO)
Agora, a pirâmide recém-proposta pelo USDA e Departamentos de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, literalmente inverte a configuração e recomendações de quantidades dos alimentos, dividindo-os em três grupos. Sob o argumento de que o país precisa reverter a prevalência de mais de 70% de sobrepeso e obesidade na população e os gastos de 90% do orçamento de saúde com doenças crônicas, menciona que o consumo deve se voltar para alimentos de verdade. Isso é ótimo, mas há o problema dos detalhes.

ISSO É RUIM
Os equívocos são: priorizar o consumo de proteínas em todas as refeições, consumo de laticínios integrais, considerar carnes e ovos como fontes de gorduras saudáveis. A recomendação do consumo de proteínas é de 1,2 a 1,6 g/Kg peso/dia, o que é necessário apenas para pessoas que realizam treinamento físico e atletas. Pessoas sedentárias, como a maioria da população, não precisa mais do que 0,8 a 1,0 g/Kg peso/dia. Laticínios integrais, assim como carnes e ovos são fontes de gorduras saturadas não-saudáveis e colesterol, fatores que provocam as doenças cardiovasculares, a maior causa de mortes nos EUA e no Brasil.

Se você é uma pessoa preocupada com sua saúde, não se iluda com essa pirâmide atualizada, que será um novo modismo

ISSO É BOM 
O que já era bom na pirâmide “antiga” e continua na nova proposta: consumir vegetais em geral e grãos integrais ricos em fibras, também castanhas, sementes e azeite, limitar consumo de cereais refinados, açúcar e doces, outros aditivos artificiais, bebidas com açúcar e álcool. Ajustar consumo de acordo com idade, sexo, tamanho corporal e estilo de vida (sedentário ou ativo).

QUAL É O PONTO
As pessoas nos EUA são as campeãs no consumo de alimentos ultraprocessados (donuts, xarope/melaço de milho etc), gorduras saturadas (carne vermelha, bacon etc) e das porções “extra big”, repletos de gorduras e açúcar, além de muita bebida alcoólica. Inverter a pirâmide enfatizando o consumo de carnes, ovos (+ bacon) e laticínios integrais é trocar seis por meia dúzia. Não são pão, batata, mandioca, milho etc, da base da “pirâmide clássica saudável” que provocam obesidade e doenças, como querem que a população acredite.

O TEMPO MOSTRARÁ
Se você é profissional nutricionista, seguir essa nova recomendação pode ser uma irresponsabilidade com a saúde de seus pacientes, tal qual foi com as dietas low carb e cetogênica (para não mencionar outras enormes besteiras já criadas). Se você é uma pessoa preocupada com sua saúde, não se iluda com isso que será um novo modismo, e se mostrará mais uma dieta ineficiente para o enorme problema dos norte americanos – obesidade e doenças crônicas, assim como vem acontecendo desde a década de 1970, quando da disseminação da dieta do Dr. Atkins, a precursora das dietas pobres em carboidratos. Uma adaptação da pirâmide da Dieta Mediterrânea prestaria melhor serviço.

Referências
ASBRAN – Associação Brasileira de Alimentação. Pirâmide alimentar adotada no Brasil ganha novos alimentos. 2013. https://www.asbran.org.br/noticias/1018/piramide-alimentar-adotada-no-brasil-ganha-novos-alimentos#:~:text=A%20pir%C3%A2mide%20alimentar%20adotada%20no,S%C3%A3o%20Paulo)%2C%20vai%20mudar 

Bach-Faig A, Berry EM, Lairon D, ..., Mediterranean Diet Foundation Expert Group. Mediterranean diet pyramid today. Science and cultural updates. Public Health Nutr. 2011 Dec;14(12A):2274-84. http://dx.doi.org/10.1017/S1368980011002515 

Sofi F, Martini D, Angelino D, ..., Strazzullo P. Mediterranean diet: Why a new pyramid? An updated representation of the traditional Mediterranean diet by the Italian Society of Human Nutrition (SINU). Nutr Metab Cardiovasc Dis. 2025 Aug;35(8):103919. http://dx.doi.org/10.1016/j.numecd.2025.103919 

USDA. United States Departmente of Agriculture. Real food starts here. https://realfood.gov/ 

Willett W. Mediterranean Dietary Pyramid. Int J Environ Res Public Health. 2021 Apr 26;18(9):4568. http://dx.doi.org/10.3390/ijerph18094568 
 

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