Jornalismo regional tem uma grande perda

OPINIÃO - Altino Correia

Data 07/12/2021
Horário 02:55

Adelmo Santos Reis Vanalli cumpriu sua missão e partiu para a eternidade. Como seu próprio nome indica, no dia 6 de janeiro - dedicado a Santos Reis - ele estaria completando mais um aniversário natalício, o que não vai acontecer porque ele acaba de falecer um mês antes. E agora, seus restos mortais já estão repousando no Cemitério São João Batista em Presidente Prudente. Minhas primeiras lembranças a respeito do colega e grande amigo, têm mais de 70 anos. Vivenciamos a atividade escolar a partir de 1947 em Presidente Venceslau, onde todos os alunos que ingressaram no 2º grau (integrando a 1ª turma ginasial) aparecem numa foto inédita. Logo à frente (pela esquerda) está o aluno Adelmo Santos Reis Vanalli; e do outro lado, à direita, eu, Altino Correia. Ambos, ainda de calças curtas. Foi assim que nos conhecemos (ao lado do diretor Joaquim Belizandro) e todos os integrantes da 1ª turma do Ginásio Estadual de Presidente Venceslau.  

Cedida

Do curso ginasial que frequentamos no antigo prédio do Grupo Escolar "Álvaro Coelho", aprendemos muita coisa. Inclusive, com o trabalho desenvolvido por uma professora dedicada ao meio artístico, onde fomos transformados em "atores", levados posteriormente para a comunicação radiofônica. Foi lá na Rádio Presidente Venceslau que eu tive a oportunidade de atuar no papel de um "médico inteligente" que tratava epiléticos (um epilético eu deixo são!). Em seguida, com orientação dessa professora, fomos para um Programa de Perguntas e Respostas na ZYH-7 - A Gigante do Oeste Paulista. Nessa oportunidade, fui escolhido como apresentador. O que marcou minha iniciação na radiofonia, onde o Adelmo (juntamente com Rubens Shirassu) também já estava atuando como auxiliar do diretor da emissora, tendo feito carreira brilhante - inclusive no jornalismo - e também nas coberturas esportivas da cidade e região. 
Anos depois, foi aberta concorrência para a instalação de uma nova emissora em Presidente Prudente. Por atuação do superintendente Hélio Cyrino da Silva - Venceslau sagrou-se vencedora, em 1954. Daí, surgiu a Rádio Presidente Prudente - ZYR-84 - tendo como 1º gerente, o ex-radialista Rubens Shirassu. Anos depois, a gerência da emissora foi transferida para o então jornalista Adelmo Santos Reis Vanalli.  Desligando-se da emissora, Adelmo passou a responder pelo Jornal O Imparcial, como chefe de redação e, posteriormente, diretor. Atuou também durante vários anos como correspondente do Jornal O Estado de São Paulo.
Anos depois, eu (Altino Correia), especialmente convidado por Geraldo Soller, que dirigia a ZYR-84, passei a atuar como sub-gerente e chefe de reportagem. Nas horas vagas, assumi o compromisso de fechamento do Jornal O Imparcial como "repórter policial", onde atuei ao lado de Adelmo Santos Reis Vanalli, do diretor Mário Peretti, do cronista social Barbosa da Silveira e outros profissionais destacados profissionais de imprensa. Eu, após desligamento da Rádio Presidente Prudente e já atuando também como repórter do Jornal do Brasil, tive a incumbência de cobrir em Campo Grande (MS) um sequestro de trágicas consequências. Envolvia o filho único de um banqueiro chamado Lúdio Coelho. Foi um fato de repercussão nacional e internacional, pois o sequestro envolveu policiais militares, incluindo dois tenentes e outros milicianos. Por se tratar de um "banqueiro", os sequestradores exigiram uma soma vultosa pela libertação de "Ludinho Coelho", jovem e filho único que havia retornado do exterior. A exigência foi cumprida sem qualquer contestação. Mas aí, os sequestradores foram mais rigorosos e apropriados com o dinheiro que receberam, acabaram assassinando o jovem sequestrado.
Para cobrir essa matéria de sequestro em Campo Grande (MS), fui autorizado pelos diretores do Jornal do Brasil a me deslocar imediatamente; e por volta das 12h (pronto para a partida), convidei Adelmo a viajar comigo e ele decidiu prontamente a enfrentar a estrada com centenas de quilômetros, a fim de colher todos os dados da ação policial comandada pelo delegado Fleury - do Esquadrão da Morte - especialmente contratado para a ação contra os policiais militares que cometeram o sequestro, seguido de morte do sequestrado. Num "Fusquinha Amarelo" que tanquiei na saída de Presidente Prudente, eu e o Adelmo Vanalli partimos a toda velocidade até alcançar Campo Grande. Chegamos em tempo da "entrevista coletiva" com o delegado Fleury, do Esquadrão da Morte. Em seguida, Adelmo solicitou permissão para o retorno imediato, no meu "Fusquinha Amarelo". Mas um imprevisto aconteceu: o carro havia sido tanqueado em Presidente Prudente ao sairmos da cidade e foi até Campo Grande, sem o menor problema. Passei as chaves para o Adelmo retornar, desejando-lhe boa viagem. Mas o que ninguém se lembrou foi de tanquear o carro na volta, o que não foi feito. Somente alguns quilômetros depois é que o Adelmo percebeu que o carro começou a falhar. Aí, olhou para o velocímetro e deu conta que estava ameaçado de ficar na estrada. Reduziu a velocidade, aproveitou as banguelas e viu com alegria a aproximação um posto de gasolina. De imediato: tanqueou o carro e veio até Presidente Prudente em tempo para publicar a matéria no Jornal O Imparcial, de maior repercussão: na manchete de primeira página: “Sequestro do filho do banqueiro de Campo Grande acabou em morte trágica!”.

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