Lucro na DRE, Rombo no Patrimônio

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 13/06/2026
Horário 05:03

Em um case real da minha consultoria, encontrei uma situação que acende o alerta de qualquer empresário: a DRE apontava lucro, mas o patrimônio líquido da empresa caía de um mês para o outro. À primeira vista, parece contraditório. Afinal, se a empresa lucrou, o patrimônio não deveria aumentar?
A resposta é: deveria, desde que o lucro fosse real, o caixa estivesse conciliado e os lançamentos patrimoniais corretos. Por isso, não basta olhar apenas para um relatório. Todo empresário precisa acompanhar três demonstrativos: DRE, Fluxo de Caixa e Balanço Patrimonial.
A DRE mostra se a operação deu lucro ou prejuízo no período. Mas lucro não significa dinheiro disponível. A empresa pode vender bem e, ainda assim, estar apertada, porque vendeu no crediário, no boleto, no cartão parcelado ou porque ainda não recebeu aquilo que reconheceu como receita.
O Fluxo de Caixa mostra a respiração financeira da empresa. Ele revela o que entrou, o que saiu e quanto sobrou nas contas. Nele aparecem pagamentos antigos, recebimentos de meses anteriores, empréstimos, venda de bens, atrasos e retiradas maiores dos sócios.
Já o Balanço Patrimonial mostra se a empresa ficou mais rica ou mais pobre. Em termos simples, compara bens e direitos contra obrigações. Se a empresa tem um carro de R$ 100 mil, mas deve R$ 80 mil de financiamento, o patrimônio líquido real é de R$ 20 mil.
O problema começa quando esses três relatórios não conversam. Se a DRE mostra lucro, mas o patrimônio cai, existe algo a ser explicado. Pode ser erro: lançamentos duplicados, boletos pagos e não registrados, despesas classificadas de forma errada, baixa indevida de títulos, estoque mal informado, conciliação incompleta ou dívidas não reconhecidas.
Mas também pode ser fraude. Um funcionário com acesso privilegiado ao sistema pode registrar vendas normalmente, mas direcionar o PIX para uma conta que não é da empresa. Pode alterar dados bancários de fornecedores, lançar despesas fictícias, cancelar vendas depois do recebimento, conceder descontos indevidos, baixar títulos manualmente ou esconder sangrias de caixa.
Por isso, quando lucro sobe e patrimônio cai, o empresário não deve comemorar antes de auditar os números. A pergunta não é apenas “quanto deu de lucro?”. A pergunta correta é: esse lucro entrou no caixa? Ficou na empresa? Aumentou o patrimônio?
Relatório bonito não paga boleto. DRE positiva sem caixa e sem crescimento patrimonial pode ser apenas uma ilusão gerencial.
Gestão séria exige conciliação bancária, separação de funções, controle de acesso ao ERP e cruzamento dos relatórios. Porque, quando aparece lucro na DRE e rombo no patrimônio, só existem dois caminhos: corrigir o erro ou descobrir se alguém está tirando dinheiro da empresa.

Walter Roque Gonçalves atua como consultor há 20 anos, com mais de uma centena de empresas atendidas pelo país. Atuou como professor na pós-graduação em Administração de Empresa pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) de Presidente Prudente e de Dourados (MS). Formado em Administração de Empresas, Processos Gerenciais, Processamento de Dados, especializado em Gestão de Empresas, escreve para dezenas de jornais, revistas e portais pelo Brasil. CRA 144.772 | Contato: (18) 99723-3109 | e-mail: [email protected]

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