Magros sarcopênicos 

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Tente contar nos dedos quantas pessoas da família, do trabalho e círculo de amigos estão usando tirzepatida (Mounjaro) e seus semelhantes, declaradamente ou discretamente. Faltaram dedos? [risos]. Algumas dessas pessoas eram obesas e algumas, provavelmente tinham peso normal, com variação tolerável de alguns quilos. Se tiver curiosidade, observe o que está acontecendo com essas pessoas, após algumas semanas ou meses usando o medicamento, principalmente aquelas que já tinham peso normal ou poucos Kg a mais.

CONSERVAÇÃO DE ENERGIA
O corpo está programado para armazenar energia, pois isso significa uma segurança para períodos de escassez de alimentos. Há genes e enzimas que são ativados quando há consumo abundante de calorias (dieta hipercalórica) para o armazenamento de gordura. Quando a pessoa consume uma dieta pobre em calorias (hipocalórica) são ativados mecanismos de poupança de energia e aumento da fome. Diminuir os estoques de gordura/energia é entendido pelo sistema nervoso com um risco à vida.

RESISTÊNCIA
Os mecanismos acima que envolvem neurotransmissores e hormônios explicam ao menos em parte porque é tão difícil diminuir a gordura corporal e depois manter os estoques baixos por meses ou anos. O sistema nervoso, especificamente o hipotálamo, está à frente da resistência e vence a batalha em muitos casos. Diversos medicamentos e estratégias já foram utilizados para sobrepujar essa resistência. Alguns tiveram sucesso, no entanto, havia efeitos colaterais significativos e o uso não era sustentável por mais que alguns meses. Não por acaso, vários foram retirados do mercado e até proibidos pela Anvisa. 

ANOREXÍGENOS DA VEZ
Liraglutida, semaglutida, tirzepatida e semelhantes têm se mostrado eficientes anorexígenos (inibem a fome), provocam o comportamento de restrição calórica de média a severa, e fazem com que o catabolismo (perda) seja maior do que o anabolismo (ganho) de gordura, resultando em emagrecimento severo em algumas semanas ou meses. Há também benefícios nos parâmetros bioquímicos, melhora da sensibilidade à insulina, controle da pressão arterial e diminuição de risco para doenças cardiovasculares. Os efeitos colaterais têm se mostrado toleráveis e administráveis na maioria das pessoas.

Perda de proteínas e músculos pode evoluir para condição de sarcopenia, com diminuição muscular, da força e condição de fragilidade

CATABOLISMO SEVERO
Acontece que pessoas em restrição calórica severa, usando ou não análogos das incretinas GLP-1 e GIP (tirzepatida), ficam em estado de catabolismo também severo. Não é apenas a gordura que é quebrada, oxidada e some do corpo. O estoque de glicose na forma de glicogênio (reserva de energia) também fica bem baixo. As proteínas, principalmente musculares, também são quebradas e os aminoácidos são utilizados para diversos fins, inclusive produção de energia, já que o consumo de carboidratos está baixo. A urina fica bem “nitrogenada”, pois elimina ureia e ácido úrico em maior quantidade, provenientes dos carboidratos. Há perda de proteínas e do volume muscular (até 40-60% do peso perdido), podendo evoluir para condição de sarcopenia, caracterizada pela diminuição muscular, da força e condição de fragilidade.

FREIOS POSSÍVEIS
Para evitar catabolismo severo e manter anabolismo suficiente, o primeiro item é a dieta equilibrada e não severa (acompanhamento de nutricionista), o segundo é prática de exercícios de força para estimular hormônios anabólicos e a manutenção dos músculos (treinamento com professor de Ed. Física). Pense em não usar esses medicamentos quando o excesso é de poucos Kg e, se usar, tenha bem estabelecido um peso saudável a ser atingido, pois isso denota bom senso.

Referências

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