Mal estar docente na pandemia

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 21/02/2021
Horário 04:30

O antropólogo Darcy Ribeiro costumava dizer que a crise da educação no Brasil não era crise, era projeto. Com essas palavras, o fundador da UNB evidenciava a sucessão de projetos desastrosos que fizeram retroceder nossos índices educacionais, sendo os piores aqueles implantados na Ditadura Militar, que entre outros retrocessos, destruiu a carreira docente. 
Embora muita coisa tenha melhorado após a redemocratização e especialmente, nos últimos 20 anos, a pertinência da frase de Darcy Ribeiro fica evidente quando se observa que no Google acadêmico existem 440 mil menções ao termo “mal estar docente”, recorrente em pesquisas acadêmicas das áreas de educação, psicologia, psiquiatria e sociologia do trabalho.
Pesquisa da OCDE de 2020 mostrou que os professores brasileiros são os mais desvalorizados entre os 35 países pesquisados. Más condições de trabalho, violência e desmotivação com a carreira são fatores que se somam aos baixos salários para completar o “mal estar docente”.

Pesquisa da OCDE de 2020 mostrou que os professores brasileiros são os mais desvalorizados entre os 35 países pesquisados

Em março de 2020, com a pandemia da Covid-19, o mal estar recrudesceu. Fomos celebrados pela sociedade pela rapidez com que transformamos nossas práticas pedagógicas, saudados pelas famílias que do outro lado da tela passaram a entender como professores são importantes nas vidas dos seus filhos. Nunca o termo herói foi tão associado ao professor. 
Entretanto, o mal estar está aí e precisamos falar sobre ele. Pesquisa do Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente da UFMG, realizada durante a pandemia, mostrou que 60% dos professores se dizem apreensivos com o futuro, 76% relatam medo e insegurança com o retorno, 45% indicaram medo de perder o emprego e 49% demonstraram apreensão com a perda de direitos e garantias. 
Os 60% dos professores que relatam apreensão com relação ao futuro, índice do qual me incluo, talvez o façam pela completa ausência de um verdadeiro projeto de educação para o país, que atrele educação a desenvolvimento econômico e redução das desigualdades, como fizeram os países ricos no passado. É possível que o projeto atual seja esse, acentuar nosso mal estar e nossa angústia. Nesse aspecto, os resultados têm sido excelentes. 


 

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