Manhã de domingo

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 30/01/2022
Horário 04:30

A luz fraca do dia entra no meu quarto. O verão está aqui. Tudo ainda em suspenso. Tudo em silêncio. Retoma em mim aquele sentimento de estranhamento provocado por mais uma onda da pandemia. E...hoje, já era amanhã. Na cama, o sono já não me arrastava. Quem irá prover o alimento? Semear a terra? Colher os frutos?
Apesar dos estragos provocados outro dia, eu realmente gostaria que chovesse bem forte lá fora. E o vento acariciando o meu rosto, eu seria forçado a pensar nos ritmos e pulsos da natureza. O impacto quase instantâneo do meteorito bem perto de casa (não foi exagero de pescador mineiro, não). Ou a erupção vulcânica chocante em La Palma, nas Ilhas Canárias, e seu mar de larvas deixando um rastro de destruição durante semanas. Superposição de ciclos, ritmos e tempos que espreitamos pelas frestas da janela. E aquela imagem chocante que não sai da minha mente....a do  escorregamento de terra que engoliu casas históricas em Ouro Preto!
É que nosso planeta não pode esperar. É dinâmico, em constante transformação. Processos contínuos como o do crescimento de recifes. Processos descontínuos como o do remodelamento da faixa litorânea durante tempestades. O novo e o velho, o externo e o interno, considerados como vetores que se negam, comprimem o espaço em um mesmo tempo. Inundações, terremotos, tsunamis, secas, furacões, eventos que nos parecem raros ao longo de nossas vidas, mas comuns nas entranhas das rochas, nas linhas-mestres da história da Terra. 
De que natureza tu és? A da progressão unidirecional de determinados estados físicos, químicos ou biológicos em afastamento constante da sua condição original? Daquela sucessão mais ou menos regular de eventos em movimentos cíclicos? Ou simplesmente a  da explosão da vida diante do espelho?
Daí mantenho-me em duelo constante com o medo. Todo mundo desarmado. Eu com uma espada, girando em círculos. Se mato, nasço. Se poupo, continuo em minha inércia. A do que escreve. Aquela que encena e a do que sonha. Tudo o que se tem a fazer é esperar,  sem ação nem solução. Tudo de novo, de novo, de novo.
Bem... chega de prosa. Ela olhou para mim com o maior ar de indagação. Aquela torta de ricota que sua mãe mandou a receita é de arrepiar. Hum! Hum! Queria levar consigo a certeza de que todos a respeitariam mais um vez apesar das grades e portas fechadas.
Pois que venha a semeadura. De uma forma ou de outra a fresta estava aberta. Vamos caetanear... Ó tempo, ó tempo, ó tempo, “compositor de destinos, tambor de tantos ritmos”.
 

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