Morte de George Floyd reacende debate antirracista em Prudente

Na região, imagens tristes do fato ocorrido nos EUA também chegaram; coletivos locais utilizam a arte afro-brasileira e o conhecimento acadêmico para o enfrentamento do racismo estrutural

PRUDENTE - MARCO VINICIUS ROPELLI

Data 05/07/2020
Horário 04:21
Cedida - Fabiana e Ivonete participam juntas de uma oficina da Pastoral da Juventude Foto: Cedida - Fabiana e Ivonete participam juntas de uma oficina da Pastoral da Juventude

“Por favor, eu não consigo respirar", foram as últimas palavras de George Floyd, um homem afro-americano de 46 anos que morreu nos Estados Unidos, enquanto um policial o imobilizava no chão, ajoelhado sobre seu pescoço por quase nove minutos, depois deste, na versão dos policiais, ter sido pego tentando trocar dólares falsos em uma loja. As palavras ganharam a mídia, reverberaram pelos quatro cantos do mundo e por onde passaram levaram comoção e o espírito da luta antirracista. Na região de Presidente Prudente, as imagens tristes também chegaram e despertaram questões e reações.

O coletivo Mãos Negras, de Prudente, por exemplo, depois do assassinato de Floyd, recebeu dezenas de contatos com demandas sobre o caso e tiveram resposta rápida, a organização do Curso de Formação Antirracista “Vidas negras importam”, que já no primeiro tema (“Não consigo respirar” – O renascimento negro por Cheik Anta Diop [físico, antropólogo, historiador, literato do Senegal]), ministrado em ambiente virtual, obteve grande participação.

Quem organizou o curso foi a coordenadora do coletivo Mãos Negras e do Mocambo APMs (Agentes de Pastoral Negros e Negras) Nzinga Afro-Brasil: Arte – Educação – Cultura, Ivonete Aparecida Alves, 53 anos. Referência na região no estudo e luta antirracista, a atual doutoranda pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), faz parte de um grupo de pesquisadores, que com inspiração na pedagogia de Paulo Freire, acreditam que a mudança social será feita através da educação.

“Sabemos que o extermínio está posto, então qual o projeto antirracista que leva meninos e meninas negras a terem esperança no futuro?”, questiona Ivonete. Segundo ela, os séculos de luta antirracista geraram conquistas, como, por exemplo, a Lei 10.639/2003, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da presença da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Africana", mas os casos que se repetem, no verdadeiro genocídio da população negra, por outro lado, por vezes, desmotivam a base de luta.

A educadora social e militante do coletivo Mãos Negras, Fabiana Alves dos Santos, 25 anos, bebe da fonte que Ivonete e tantos outros pesquisadores do antirracismo encontraram. Quando Ivonete iniciou na Unesp (Universidade Estadual Paulista) Júlio de Mesquita Filho, de Prudente, seu curso de Pedagogia, nos primeiros anos da década de 2000, haviam poucos estudos e era escassa a bibliografia sobre o tema na universidade, e ela foi uma das que ajudaram, com apoio de importantes mestres, levantar a bandeira.

“A CADA 23 MINUTOS MORRE UM JOVEM NEGRO NO BRASIL, MAS PARECE QUE AQUI ISTO FOI NORMALIZADO. SERÁ QUE NÃO TEMOS UMA SITUAÇÃO QUE JÁ É MOTIVO PARA NOS IMPORTARMOS?”

Fabiana Alves dos Santos

Fabiana, natural de Salvador (BA) e moradora de Prudente desde 2015, afirma ter sofrido com atos racistas em supermercados, ou em entrevista de emprego na capital do oeste paulista. Ela diz que há, no Brasil, como em vários outros locais do mundo, o racismo estrutural, encravado na sociedade que ainda cultiva resquícios da escravidão. Ela propõe a seguinte análise: “A cada 23 minutos, morre um jovem negro no Brasil, mas parece que aqui isto foi normalizado. Somos mais influenciados pelo o que ocorre em outros países. Será que não temos uma situação que já é motivo para nos importarmos?”, reflete.

“Em Prudente tem pessoas solidárias à nossa causa. Não temos ódio de branco, precisamos do engajamento dos brancos também”, completa.

Antirracismo em Prudente

Um dos primeiros grupos oficializados com o ideal antirracista a surgir em Presidente Prudente foi o Mocambo APMs Nzinga Afro-Brasil: Arte – Educação – Cultura. Surgiu em 2009, no Jardim Cambuci, quando Ivonete, que é moradora do bairro, fazia pesquisas de geração de renda com arte afro. “Seis adultos vieram para a primeira reunião, foram solícitos, mas não quiseram fazer o artesanato”, conta.

“Fui fazer meus trabalhos com papel machê em frente de casa, estava modelando uma máscara quando as crianças, minhas vizinhas, vieram para saber o que eu estava fazendo. ‘Deixa a gente fazer também’, diziam. Foram tão insistentes que comecei a ensinar. Pedi para avisarem os pais e virem sem o uniforme escolar e sem os materiais, para não ficar jogado. Na segunda-feira, vieram sete crianças, na sexta eram 27”, relata.

O projeto cresceu e teve tanto destaque que no mesmo ano foi vencedor de um concurso promovido pela Fundação Palmares e até hoje segue atuando no mesmo local. Foi a partir dele que o trabalho social de Ivonete obteve destaque, o que a permitiu, entre outras coisas, ser a primeira presidente do Conselho Municipal de Igualdade Racial.

Já o coletivo Mãos Negras surgiu em 2012, depois que um ato racista ocorrido no campus da Unesp de Prudente gerou repercussão e diversos estudantes e militantes, frente ao ocorrido, perceberam que deveriam se unir e deram as mãos.

 

SERVIÇO

Um texto como esse não pode sequer falar um décimo daquilo que representam os movimentos sociais citados. É por isso que há abaixo formas de contatá-los:

O Nzinga AfroBrasil fica na Rua Amélia Sanches Matheus, 305, Jardim Cambuci. Evidentemente, não tem recebido visitas presenciais durante a pandemia. Mais informações através do telefone (18) 99740-6152.

Já o coletivo Mãos Negras não possui espaço físico, mas está presente nas redes sociais no endereço @coletivomaosnegras.

Foto – Weverson Nascimento

Ivonete dedicou parte de sua vida no estudo profundo nas questões raciais e do antirracismo

Foto – Cedida

Fabiana afirma que o coletivo Mãos Negras que a fez ingressar na luta antirracista

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