Mounjaro: um recurso no tratamento da obesidade, não um atalho para a estética

OPINIÃO - Osmar Marchioto Jr.

Data 14/01/2026
Horário 04:30

Mounjaro (tirzepatida) é um medicamento aprovado no Brasil para o tratamento da obesidade, prescrito por médicos e vendido em farmácias com controle e regulamentação. Sua atuação é inovadora: ele age em receptores hormonais relacionados ao apetite e à saciedade, reduzindo a fome e permitindo que o paciente experimente uma redução na ingestão alimentar. No entanto, é essencial reforçar que o Mounjaro não promove, por si só, a adoção de novos hábitos de vida. A formação de um padrão alimentar de qualidade é uma construção independente da medicação, que exige intenção, prática contínua e suporte profissional adequado. O medicamento pode auxiliar em parte do processo, mas não substitui o protagonismo necessário para a mudança de comportamento.
A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Envolve fatores genéticos, emocionais, ambientais e comportamentais. Tratar a obesidade exige muito mais do que força de vontade. Exige o desenvolvimento de novas habilidades, o aumento do repertório em saúde e um alinhamento entre a motivação e aquilo que é valoroso para o paciente. É um processo que acontece com prática, consistência e visão de médio e longo prazo.
Infelizmente, o que temos visto é a banalização do uso do Mounjaro, com comercialização fora das normas da saúde pública: manipulados sem respaldo legal, vendidos em clínicas, ou até mesmo indicados por profissionais da saúde de forma clandestina, em contextos que priorizam padrões corporais idealizados e o lucro, e não a saúde do paciente. Essa prática é perigosa. Não só por desrespeitar a legislação sanitária e ética médica, mas porque transforma um recurso terapêutico sério em produto de consumo rápido, esvaziando o tratamento da obesidade de seu verdadeiro propósito: melhorar a saúde, a funcionalidade e a qualidade de vida.
A busca por um corpo ideal sem transformação de comportamento é insustentável. Medicamentos como o Mounjaro podem, sim, ajudar no processo de perda de peso. Mas precisam estar inseridos em um plano de cuidado completo, que envolva reeducação alimentar, atividade física orientada, acompanhamento psicológico quando necessário e, principalmente, uma mudança real de mentalidade sobre o corpo e sobre o autocuidado.
O emagrecimento saudável acontece quando o paciente aprende a cuidar de si, não quando apenas perde peso. Isso envolve desenvolver autonomia, fazer escolhas conscientes, lidar com recaídas, aprender com os erros e fortalecer a própria autoestima. O papel da medicação, nesse cenário, é facilitar o processo, oferecendo suporte para que o paciente consiga aplicar na prática aquilo que já sabe. Não se trata de substituir o esforço pessoal por uma fórmula mágica voltada apenas à adequação estética.
É dever de todos os profissionais da saúde preservar a ética, promover informação de qualidade e proteger o paciente dos riscos de intervenções sem respaldo científico ou legal. Mounjaro é um recurso valioso, mas só faz sentido quando usado com responsabilidade, dentro de um projeto de saúde que respeite o indivíduo como um todo.
 

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