A expressão “na alegria e na tristeza” costuma ser repetida em cerimônias de casamento pelo Brasil afora. Com o tempo, ela deixa de ser promessa e passa a ser pergunta. Difícil é descobrir se o afeto continua inteiro quando chegam o silêncio, a doença e o medo. Daí quis o destino que enfrentássemos juntos aqueles momentos difíceis. Decidir pela cirurgia com o peito aberto, enfrentar o escuro e os dias que a sua vida estava nas mãos de outras pessoas.
Pois é, naqueles dias sentado ao seu lado, muitas músicas me passaram pela cabeça. Dizem que a música popular brasileira talvez seja aquela que a expressão “na alegria e na tristeza” ganha maior densidade humana. E o amor aflora não na intensidade dos grandes gestos, mas na delicada persistência de quem escolhe ficar.
O primeiro que sussurrava nos meus ouvidos era Vinicius, eternizado no “Soneto de Fidelidade”, quando ele diz: “E em seu louvor hei de espalhar meu canto / E rir meu riso e derramar meu pranto.” Nesses versos, o riso e o pranto pertencem igualmente à vida compartilhada. Amar é participar das duas experiências.
E o que dizer do eterno Chico Buarque quando, recorrendo a imagens poéticas, ele canta: “Duas vidas que o destino quis / Ver no mesmo céu / Duas luas num eclipse fiel / Brilham juntas para o bem e o mal”. Ele sugere que duas existências podem seguir trajetórias inseparáveis. A metáfora das duas luas revela que o amor não elimina as sombras; ele aprende a atravessá-las.
Essa visão aparece em muitas outras obras da MPB. Em “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, o tempo não é inimigo do amor, mas aquilo que o testa e o amadurece. Já em “Resposta ao Tempo”, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, a convivência com as perdas torna-se parte inseparável da própria experiência de amar. Amar é permanecer quando o encanto inicial já não basta; é cuidar quando o outro fraqueja; é celebrar quando há motivos para sorrir e sustentar a esperança quando restam apenas o silêncio e a espera.
Nesse sentido, a MPB amplia o significado dos votos matrimoniais. “Na alegria e na tristeza” deixa de ser uma frase pronunciada diante do altar e passa a ser uma filosofia de vida. O amor verdadeiro não é aquele que desconhece a dor, mas aquele que transforma a dor em companhia. É um exercício permanente de presença, em que o riso e o pranto deixam de pertencer a um só coração para se tornarem uma história compartilhada.