Novo laser contra a presbiopia é lançado em congresso de Oftalmologia

SINOMAR CALMONA

Tecnologia "Wet Ablation" dispensa gás e é aprovada pela Anvisa antes mesmo dos EUA.

COLUNA - Sinomar

Data 27/05/2026
Horário 05:15
 Dr. Filipe Ozio no XXIII Congresso de Catarata e Cirurgia Refrativa da ABCCR (Associação Brasileira de Cirurgia de Catarata e Refrativa)
Dr. Filipe Ozio no XXIII Congresso de Catarata e Cirurgia Refrativa da ABCCR (Associação Brasileira de Cirurgia de Catarata e Refrativa)

O bisturi não toca o olho. Em vez do corte seco e esperado, há um jato de fluido que abla tecido com precisão de micrômetros. A sala de wet lab no centro de convenções de São Paulo cheira a álcool e plástico estéril. O som é de aparelhos em baixa frequência e vozes em quatro idiomas. Ali, entre seringas e lâmpadas de fenda, o Dr. Filipe Ozio, do Instituto Omar Murad, testemunha uma mudança de época.
A arma desse avanço se chama Wet Ablation. Um laser que torna o gás hospitalar obsoleto. “Já foi liberado pela Anvisa”, conta Ozio, ainda com os olhos vidrados na demonstração. “O FDA, nos Estados Unidos, ainda não liberou. Aqui, saímos na frente.”
O palco dessa revelação foi o XXIII Congresso de Catarata e Cirurgia Refrativa da ABCCR (BRASCRS), que reuniu especialistas de 14 países entre 13 e 26 de maio. A meta declarada da Associação Brasileira de Cirurgia de Catarata e Refrativa era uma só: congregar oftalmologistas, aprofundar o estudo técnico-científico e estender benefícios à comunidade. Nos bastidores, porém, o mote era outro.


O incômodo que unifica a meia-idade
Todas as conversas, todas as palestras, todas as novas lentes expostas nas bancadas giravam em torno de um mesmo desconforto. A presbiopia. Aquela dificuldade teimosa de enxergar o cardápio ou o celular depois dos 40 anos. É o momento em que o braço começa a ficar curto demais para a letra miúda.
“Tudo que estão desenvolvendo hoje está relacionado a isso”, resume Ozio. “Seja nas lentes intraoculares para correção de grau, seja nas cirurgias a laser. O foco virou a perto.”
O congresso, então, foi um desfile de soluções. Mas duas paralisaram a atenção do médico do Oeste Paulista.


A lente que vem dos EUA
A primeira é a PanOptix Pro. Lançada há apenas seis meses nos Estados Unidos, ela promete devolver a visão de perto, médio e longe sem o vaivém de óculos multifocais. Lá, os cirurgiões já a testaram em milhares de olhos. Aqui, ela ainda vai começar a ser vendida.
“Tivemos troca de experiência com os americanos”, diz Ozio. “Eles elogiaram muito. A gente se sente sempre feliz em poder trazer para o pessoal do interior essas novidades que estão sendo lançadas no mundo.”
Não se trata apenas de conforto. Trata-se de independência. Um paciente que volta a ler uma bula, a costurar ou a usar o computador sem inclinar a cabeça para trás.


O clímax na bancada molhada
A foto que circula entre os especialistas mostra Ozio em posição de concentração máxima. Luvas calçadas, microscópio alinhado, mãos firmes sobre um olho simulado. Ele participa de um wet lab de cirurgia microinvasiva para glaucoma. O procedimento é quase cirúrgico em sua discrição: incisões menores que um milímetro, sem sutura, com recuperação medida em dias.
“Isso pouco foi realizado aqui no interior. Em Presidente Prudente, não é muito difundido”, admite. “Por isso fui lá aprender. Para trazer esses procedimentos novos.”
O silêncio na sala de treinamento era cortado apenas pelo clique dos instrumentos e pelo murmúrio de aprovação dos instrutores. Ali, naquele momento, o futuro da oftalmologia regional se desenhava em uma bancada molhada.


Desfecho: a fila do amanhã
Agora, a viagem terminou. As malas estão desfeitas. Mas o relógio começa a correr. A Anvisa já deu o aval para o Wet Ablation. A PanOptix Pro aguarda registro. E os primeiros pacientes do Oeste Paulista já podem ser convidados a deixar de lado os óculos de leitura.
O desafio de Ozio e sua equipe não é mais técnico. É logístico, financeiro e educacional: ensinar oftalmologistas da região, convencer planos de saúde e, acima de tudo, mostrar que enxergar de perto depois dos 40 deixou de ser um luxo. É, cada vez mais, uma questão de tecnologia bem aplicada.
O próximo capítulo dessa história será escrito não em um centro de convenções, mas na sala de espera de um consultório em Presidente Prudente. O paciente sentará, lerá a tabela, franzirá o cenho. E ouvirá: “Temos uma novidade para o senhor.”


DR. FILIPE OZIO E COLEGAS DURANTE O CONGRESSO DA BRASCRS


DR FILIPE OZIO CONFERINDO UMA DAS PRINCIPAIS INOVAÇÕES CIENTÍFICAS DO CONGRESSO DA BRASCRS

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