NR-1 Não é caça às bruxas

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 07/06/2026
Horário 04:30

Muitos empresários estão preocupados com a atualização da NR-1, especialmente quando se fala em riscos psicossociais. O medo é compreensível: há quem imagine que a empresa passará a ser responsabilizada por todo problema emocional ou mental enfrentado por um colaborador. Mas não é disso que se trata.
A empresa não é uma clínica, nem o empresário deve assumir o papel de médico, psicólogo ou terapeuta. A responsabilidade empresarial está no ambiente de trabalho. Ou seja, a organização deve cuidar para que sua rotina, suas lideranças, suas cobranças, suas metas e suas relações internas não sejam fontes de adoecimento, nem agravem situações já existentes.
A NR-1 exige gestão. Isso significa identificar, avaliar, classificar, controlar e acompanhar os riscos ocupacionais, agora incluindo também os fatores psicossociais relacionados ao trabalho. Na prática, a empresa precisa observar sinais: excesso de horas extras, afastamentos recorrentes, atestados ligados a esgotamento, conflitos internos, denúncias, alta rotatividade, pressão desorganizada, metas sem critério, lideranças agressivas ou ambientes onde o medo substitui o respeito.
Um ponto central está na liderança. Muitos gestores confundem autoridade com dureza excessiva. Outros, com medo de serem acusados de assédio ou abuso, deixam de cobrar resultados. Nenhum dos dois extremos funciona. A empresa precisa treinar seus líderes para manter autoridade, distribuir responsabilidades, dar feedback, corrigir comportamentos e exigir desempenho sem ultrapassar limites legais, morais e humanos.
A fiscalização começou com caráter mais orientativo, voltado à adaptação das empresas. Porém, superada essa fase educativa, a cobrança tende a ficar mais objetiva. Empresas sem documentação, sem medidas preventivas, sem liderança treinada e sem acompanhamento poderão sofrer autuações. Com reincidências, diferentes itens descumpridos e quantidade de empregados envolvidos, as multas podem se acumular e chegar a valores próximos ou superiores a R$ 200 mil, dependendo do caso. Em situações mais graves, quando houver risco relevante à saúde e à segurança dos trabalhadores, a empresa pode até sofrer medidas extremas, como a interdição de setores, atividades ou do próprio estabelecimento.
A melhor resposta não é o medo. É profissionalização. Quem organiza o ambiente, treina lideranças, cria canais adequados, registra ações e acompanha indicadores reduz riscos trabalhistas, melhora o clima interno e aumenta a produtividade. No fim, a NR-1 apenas reforça algo que toda boa empresa já deveria saber: resultado sustentável depende de gente bem conduzida, ambiente saudável e gestão responsável.

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