O Abutre, o filho da dor

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 15/12/2019
Horário 07:00
Foto: Cedida - O Abutre é de poucas palavras e de poucas explicações Foto: Foto: Cedida - O Abutre é de poucas palavras e de poucas explicações

Céu carregado de nuvens negras, tapando a luz pálida da lua. Um homem ajoelhado, numa estrada escura de terra, no meio de uma floresta, clama por clemência. A chuva que vem do céu é como se fossem lágrimas caindo pesadamente sob a sua cabeça: Por favor, não me mates, tenho família, um filho de apenas 6 anos, uma mulher que amo, meu pai é rico, pode te dar o mundo. O olhar frio não se comovia com as lamúrias desse homem: Você só tem o tempo para confessar o que fez com aquela menina de apenas 9 anos. Não brinque com a minha inteligência. A cada mentira uma dor sofrerás. Mas o senhor está enganado, não sei do que está falando. O Abutre é de poucas palavras e de poucas explicações. Sua mãe morreu quando nasceu e suas últimas palavras foram: "Filho da minha dor". Seu pai desiludido o culpou pela morte do seu único amor. Era para ser o filho da alegria. Foi deixado com um velho solitário, seu tio. Criado para ser o lixeiro do mundo como um Abutre. Não brinque com minha inteligência, já tinha dito. Colocou seu polegar direito no olho direito do homem e pressionou. Essa foi a primeira grande dor. Esse homem pedindo piedade, era um pedófilo que tinha estuprado e matado a pequena Angélica de apenas 9 anos. Fez coisas inimagináveis. A polícia o tinha prendido, mas a justiça com seus olhos tapados o soltou. A corrupção mandou soltar. Era filho de um poderoso e milionário político. Um doente vestido de pai de família. Angélica era filha de uma família humilde, pobre. Seu pai, o pedreiro Agenor, perdeu o céu e a terra. Sua pequena e doce Angélica era seu maior tesouro. A justiça não enxerga os pobres. Oferece um prato cheio de sentimentos de impunidade com um gosto amargo de desesperança. O cardápio da insensatez. O Abutre com seu capuz encobrindo seu rosto, sente o odor do lixo humano e o limpa. A justiça o vê, o caça, como um assassino cruel, os esquecidos sentem nele um justiceiro, um protetor. James de Castro tinha estudado na Europa. Sua arrogância vem de berço. Sua visão de mundo era que tudo pode e nada acontece para ele. Sentia-se o dono do destino. Típico sentimento de homens mimados, insensíveis, arrogantes, que não sentem e não querem saber que a vida é injusta, nunca perderam nada. Só querem sentir a sensação que o mundo lhe pertence. Mas estava diante de um homem que sabe olhar as injustiças sem medo. Um homem sofrido, desprezado pelo pai, sem nunca ter sugado o leite materno nos seios de uma mãe, criado pelo velho tio, solitário policial aposentado e desiludido com o cruel sistema. James continua pedindo clemência, mesmo com o olho direito machucado: Por favor, tenha misericórdia. O Abutre tinha o pensamento e o coração em Angélica, não havia espaço para sentir sentimentos bons. A sordidez humana não merece nada de sentimentos nobres. Antes de matar, rezava. Não era uma oração de fundo religioso, era o credo de um pistoleiro tirado do livro de Stephen King, a Torre Negra. O Abutre adorava esse credo do personagem do livro, o pistoleiro Roland Deschain. Aproximou-se mais, olhou nos olhos de James, que tremia de frio e de medo. O olhar do Abutre era profundo como se estivesse procurando a alma tatuada de maldade para comê-la. Olha para a terra e não para o céu, começa a rezar o credo do pistoleiro Deschain: 

"Eu não miro com a mão. Aquele que mira com a mão esqueceu o rosto de seu pai.

Eu miro com o olho.

Eu não atiro com a mão. Aquele que atira com a mão esqueceu o rosto de seu pai.

Eu atiro com a mente.

Eu não mato com a arma. Aquele que mata com a arma esqueceu o rosto de seu pai.

Eu mato com o coração".

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