Para quem cruza o Brasil ao volante de caminhões, lidando diariamente com motores brutos, potências descomunais e cargas que exigem atenção total, o silêncio e a simplicidade podem soar como algo distante. No entanto, o motorista Leonardo Valentim encontrou uma forma peculiar de equilibrar esse universo: ele trocou o peso das carretas pela leveza de uma "pequena notável". Na sua garagem, não há apenas um veículo antigo; há uma cápsula do tempo. Sua Honda CG 125, ano 1977, está impecável, preservando cada detalhe que a tornou o "marco zero" da motorização de massa no país.
"O que me encanta nela é a história. É a trajetória dessa moto no nosso país. Ela aguenta o serviço do dia a dia e tem uma economia surpreendente", define Leonardo, com o brilho no olhar de quem não apenas possui um objeto, mas guarda um pedaço da identidade brasileira.
O TOQUE DO MOTOR CARBURADO
Diferente de quem busca a potência eletrônica das motos modernas, Leonardo encontrou na CG 1977 – carinhosamente chamada pelos entusiastas de "bolinha" – um charme que a tecnologia atual, muitas vezes, não consegue replicar. Para ele, a experiência de pilotagem vai além do deslocamento; trata-se de uma conexão mecânica.
"O charme é a pilotagem. Por ser uma moto carburada, você sente o trabalho do motor, a força bruta em uma escala menor. Os passeios que faço com ela ficam marcados na memória", confessa. Para o caminhoneiro, a manutenção dessa máquina não é um fardo, mas uma terapia. A facilidade de encontrar peças, a mecânica descomplicada e o custo acessível fazem da CG uma companheira de estrada fiel, que permite que ele "descanse a mente" após as longas jornadas com o caminhão.
MAIS QUE UM TROFÉU, UMA PARCEIRA DE VIDA
Muito se engana quem pensa que a CG de Leonardo é uma peça estática de museu, exibida apenas sob capas de proteção. Embora possua certificado de veículo de colecionador e toda a procedência de uma peça autêntica, a moto tem destino certo nos finais de semana: o asfalto.
O clímax da história de Leonardo com sua CG não acontece na garagem, mas na estrada. Aos 14 anos, sua filha tornou-se a "copiloto" oficial das aventuras. "Muita gente me pergunta se ela fica só na garagem. Mas eu gosto de usar. Quando chega o final de semana, eu monto nela. A minha filha é minha companheira de aventura", conta com orgulho.
Para Leonardo, preservar a moto é uma forma de honrar a memória da Honda no Brasil. Ele não busca apenas manter a originalidade estética; ele busca manter viva a sensação de liberdade que aquela pequena máquina entregava décadas atrás. Entre o peso do caminhão e o guidão da CG, Leonardo Valentim encontrou o seu próprio equilíbrio, provando que, às vezes, a máquina mais avançada é aquela que, com toda a sua simplicidade, consegue nos levar mais longe emocionalmente.
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