O computador

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 04/10/2020
Horário 04:34

Forçados a trabalhar por meio remoto durante a pandemia, fomos todos lançados às experiências intensivas no meio digital, no mundo das teleconferências e da transmissão quase ilimitada de dados. Uma revolução tecnológica esperada para os próximos cinco anos, mas que teve de ser compartilhada rapidamente por causa do isolamento social, acentuando as diferenciadas condições de acessibilidade e deixando muita gente para trás. 
Experiências aparentemente banais, como baixar um vídeo ou compartilhar simultaneamente imagens, áudios e hipertextos, ganharam o centro do debate, desmistificando a ideia da “aldeia global” e devolvendo cada um de nós para o seu determinado lugar social. Tempos de mudanças da percepção do alcance da tecnologia na melhoria da vida das pessoas. 
Tal situação me fez lembrar quando cheguei a Presidente Prudente, em 1990. A grande vedete da universidade era o computador. Assim mesmo, no singular. Havia no departamento um único exemplar utilizado por 25 professores... O interessado precisava agendar o uso, e muitas tardes ele ficava obsoleto! Era um modelo 386 da Itautec, monitor verde, processador de 16 Mhz e dois megabytes de memória RAM... Os dados eram armazenados nos famosos bolachões de 360 kbytes, que levavam meses para serem preenchidos! E, obviamente, não havia conexão com a internet, o que ainda era de uso muito restrito.
Em poucos anos, tornou-se usual os professores (e alguns alunos) utilizarem o seu próprio computador, formando uma rede conectada pela internet. Não demorou muito, os computadores foram sendo substituídos por notebooks e tablets e, em seguida, por celulares. Outro dia, ingenuamente, eu perguntei em sala de aula quem tinha um computador em casa e quantos desses equipamentos eram conectados à rede mundial de computadores. A resposta de um aluno me provocou um choque geracional. Ele me disse: - Para que serve um computador se não está conectado à internet? 
Foi daí que eu me dei conta do novo universo que estamos submersos. De um lado, o giz branco que risca e delimita os círculos que piso e que guardam memórias de outros lugares. De outro, o algoritmo que desenha de forma cada vez mais precisa as nossas informações, os nossos gostos, as nossas bolhas. Afinal, “na informática nada se perde, nada se cria. Tudo se copia... E depois se cola”. Palavras ou coisas? Se não decifro, devora-me!
 

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