O dia em que o Methiolate parou de arder, o mundo mudou

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 29/05/2026
Horário 05:30

Cheguei na sauna do Tênis Clube numa segunda-feira pra lá do Inferno de Dante. Lá na mesa, a Tavola Redonda, estavam os sauneiros tradicionais e queridos amigos: Zé Garcia, Peru, Vitão, Eurico, Thadeu, Zé da Massa Pura, Lambança, Samu, Paulo Iacia, Eurico e o Marcão. O Ceará já trazendo as porções de frango e o Lambança já soltou sua tradicional bronca: "Oh Ceará, cadê o pão"? Só risadas. Ai o brilhante Dr. Paulo Borghi, mestre cervejeiro diferenciado, me disse uma frase emblemática: "O dia que o Merthiolate parou de arder o mundo mudou". Achei interessante e disse a ele abusando da intimidade dispensando as referências de praxe: "Borguinho você me deu um bom enredo para escrever uma crônica baseada nessa frase". E aqui começa a crônica:
Eu me lembro perfeitamente. Era uma manhã de terça-feira, o ano exato não importa, mas o clima era de catástrofe silenciosa, de apocalipse burocrático. A notícia chegou pelo rádio, entre a cotação do dólar e a previsão do tempo: o Merthiolate, agora, não ardia mais.
A geração Z, acostumada a airbags, internet rápida e desodorantes sem alumínio, pode não entender. Mas para a minha geração—a dos joelhos eternamente esfolados, a dos pais que resolviam tudo com um "Deixa de frescura!"—o Merthiolate não era um remédio. Era um ritual. Era o teste para se tornar um soldado espartano da elite do exército do Rei Leônidas. Era a linha divisória líquida entre o moleque chorão e o futuro estoico. O batismo de fogo, ou melhor, de iodo.
Quando caíamos de bicicleta na rua de terra, ou de um carrinho de rolemã, o protocolo era claro. Mamãe limpava o ferimento com a ponta da camisa, pegava o frasco de vidro e nos olhava com aquela expressão que dizia: “Você vai chorar. Eu sei que vai. Mas se chorar, chore como gente grande.”
O líquido vermelho-berrante descia, e por dois segundos você sentia apenas o frio. Mas aí vinha ele: o ardor. Não era uma dorzinha; era uma explosão nuclear controlada diretamente no seu tecido epitelial recém-exposto. Era a sensação de ter um pedaço do sol engarrafado e aplicado com um chumaço de algodão de fibra bruta. Você gritava, urrava, se contorcia. Mas quando passava, e passava, você se sentia invencível. Você havia sobrevivido à purificação. Estava pronto para a vida adulta, ou pelo menos para a próxima queda.
O ardor era a prova social de que o ferimento era sério o suficiente para justificar a pausa no futebol. Se ardesse, era legítimo.
Mas então veio a "Nova Fórmula". A que não manchava a roupa. A que não causava mais o choque anafilático emocional.
Eu estava no hospital com meu sobrinho que tinha cortado o dedo num origami mal sucedido. A enfermeira, com a calma de quem serve água, aplicou o líquido dourado e inofensivo. Meu sobrinho não piscou. Ele olhou para a enfermeira, olhou para o dedo, e perguntou, decepcionado:
"É só isso?"
Naquele momento, percebi a tragédia.
A nova geração não teria o ardor para calibrar seu nível de resiliência. Como eles saberiam o que era uma dor de verdade, se até o remédio era gentil? Eles nunca saberiam o que era encarar o Merthiolate e sair dele um homem (ou mulher) feito.
A crítica social cômica se impôs: a sociedade ficou mole e mimada. 
Nossas opiniões são tão sensíveis quanto um joelho tratado com o Merthiolate sem ardor. Não aguentamos mais ouvir um "não" sem precisarmos de um espaço seguro e um terapeuta. Não aceitamos um arranhão na alma sem que o mundo precise parar. Porque o remédio que nos ensinava que a superação vinha depois do fogo foi neutralizado.
O Merthiolate ardia para nos avisar: a vida vai te queimar, vai te cutucar, e vai doer por dez segundos. Mas você pode aguentar.
Hoje, quando vejo alguém se ofender por um emoji ou entrar em colapso por um comentário no Twitter, eu só consigo pensar: o que lhes falta é uma boa dose de tintura de Merthiolate com ardor. Talvez devêssemos criar um Museu da Ardência, onde os jovens pudessem sentir o cheiro (e a dor) da fórmula original, só para saberem o quão frágeis nos tornamos. E o Dr. Paulo Borghi profetizou mais uma pérola: "Vai chegar a um ponto que os muleques vão passar Nutella nos machucados”! Estamos lascados! Kkkk
Fica aqui a minha homenagem ao líquido vermelho que nos preparou para um mundo que, ironicamente, ficou suave demais. Que o ardor eterno descanse em paz. Vejam vocês.

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