Fui assistir “O Diabo veste Prada 2”. Gostei do que vi. Por ser a sequência de uma boa diversão original até que ele entregou bem. Normalmente, a parte 2 dos filmes tende a nos decepcionar bem. Já este aqui, não vai ganhar Oscar ou coisa do gênero, mas todos os personagens da primeira edição estão lá, fazem bem a parte deles e o enredo é bom.
Começa com uma realidade que faz parte da minha vida: a crise atual do jornalismo diante das novas tecnologias e das campanhas nefastas e covardes do povo esquizoide que acha que Olavo de Carvalho é um filósofo.
E até achei que o lance iria degringolar mais para sujar a profissão, só que ao contrário, o filme traz mesmo é um bom alerta a todos de que o jornalismo profissional ainda existe e vai sempre existir para aqueles que desejam cuidar bem da mente, recebendo informações de qualidade e que os façam pensar criticamente no mundo em que vivem. Quem não quiser viver assim, que colha suas próprias tempestades.
E é meio por aí que resolvi tratar disso na conversa semanal que temos por aqui. O mundo da informação desembestada e em quantidade animalesca tem produzido um efeito nas pessoas que é justamente tirar delas a capacidade crítica do que recebem e do que passam para frente.
Não à toa que a personagem de Anne Hathaway, a jornalista Andy Sachs, inicia sua cruzada, e passa o filme todo em pé de guerra, para oferecer algo melhor ao público para além dos enlatados.
A Andy do segundo filme também já não quer mais ser ninguém além dela mesma. Ela erra, claro, mas erra com a cara limpa. Não se fantasia de autoridade que não tem, nem de vítima que não é. Em algum momento, ela descobriu que o preço mais caro que se paga nesse mundo não está nas vitrines da Prada, mas na tentativa de vestir uma vida que não nos cabe.
No filme, o diabo veste Prada sim, mas traz figurinos também de outras loucuras de consumo, que por sua vez levam os deslumbrados a viverem uma outra vida, muito mais penosa e que cobra um alto preço por ser justamente quem não se é.
E aí que está, não? Quem é você neste mundo maluco de informações que exigem que sejamos isto ou aquilo? Quem é você nas coisas mais simples como se sujeitar a fazer uma trend porque o algoritmo exige ou até quem é você que coloca whey protein na mamadeira do filho porque algum guru das redes o convenceu?
Em outras palavras, o diabo veste a roupa que você permite que ele vista e reclamar depois é tão inútil quanto tentar ter no guarda-roupa apenas peças de alta costura ganhando um salário médio no Brasil.
Enfim, vale assistir o filme. Não pela moda, não pela fofoca, não pelo final, que até surpreende. Mas porque ele pergunta, sem alarde, o que quase ninguém questiona mais: qual a roupa que você tem vestido? É você quem escolhe ou o bichão que veste Prada?