O dilema

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 28/02/2021
Horário 06:00

João era um policial veterano e seu parceiro José era um jovem cheio de idealismo, que acreditava no sistema. Todos, quando são jovens, acreditam e sonham em mudar o mundo, até o sistema mostrar a sua verdadeira face. Os dois se davam bem e eram parceiros leais. José queria casar com Denise. João era casado com Dora, uma ex-policial que contraiu esclerose múltipla e se aposentou por invalidez. Tinham uma filha, Beatriz, de apenas 15 anos. 
Um dia João pede para José pegá-lo as 4h30 da madrugada e não explica o porquê. Não era do feitio de João.  José acha estranho. Chega no horário e João entra no carro e diz: Segue para o Morro do Adeus. O silêncio de João intriga José, que liga o rádio sintonizando no programa, “Os Amigos da Madrugada”, de Adelzon Alves. Um samba de Geraldo Babão do Salgueiro está tocando. O céu está nublado escondendo a luz pálida da lua. José continua intrigado com o silêncio enigmático de João. 
Até que num momento, José pergunta: O que estamos fazendo? Nada de resposta. José aumenta o tom de sua voz, irritado com esse mistério. João diz: Vamos monitorar um traficante que se chama Albino “Pé Grande”.  Mas não é um trabalho oficial? Fomos suspensos João. Silêncio novamente. José fica ainda mais cabreiro.
Cartola está cantando “O mundo é um moinho”, quando João começa a se explicar: Estou a um mês de completar 65 anos e ainda estou na mesma, de quando comecei na polícia aos 20 anos de idade. A minha vida toda acreditei que meu trabalho como policial iria dar um sentido nobre para minha vida protegendo a sociedade.  Mas não faço política e nem as leis. O que vale o trabalho bom e honesto?  Essa é a pergunta que comecei a fazer todos os dias para a minha consciência. Enquanto juízes vendem sentenças e vão passar as férias no Caribe, vejo policiais cumprindo seu duro dever para dar em nada. Ontem quando impedimos que um monte de drogas chegasse até as escolas, fomos suspensos. Alegaram que a nossa maneira de prender esses traficantes não foi muito educada. A imprensa cai de pau em cima da gente. Bandido virou vítima. Chego  em casa e fico sabendo que minha filha foi agredida pela quinta vez em dois anos por causa desse bairro que meu salário me obriga a viver.  Minha esposa vive à base de remédios. Pode acontecer que num dia desses vou ver minha filha no hospital machucada ou estuprada por algum drogado. Sou um policial pobre José, igual foi meu pai. Eu sei o que minha mãe passou para nos criar depois que meu pai foi baleado covardemente numa tocaia feita pelos marginais que ele prendeu e foram soltos meses depois.  Eu posso aceitar isso, mas não quero obrigar a minha família a aceitar viver com medo ao lado da insegurança. E se eu morrer amanhã? Quem vai cuidar delas? Lembra  do Sargento Anacleto? Eu não cheguei a conhecê-lo. Baita de um policial. Morreu esquecido, pobre, paraplégico numa cadeira de rodas, segurando sua medalha que tinha ganhado por atos de heroísmo. Você é novo e pode seguir outros caminhos. Não quero que participe desse dinheiro que vou pegar desse traficante. Nunca pensei que fosse chegar nesse ponto, mas o sistema não valoriza a honestidade. A corrupção é que sustenta tudo. Cansei José. Desculpe pelo meu total desencanto. Você vai virar um criminoso? Eu vou virar um cínico. Se você juntar cada imbecil que prendemos dava para encher uma penitenciária. E o que ganhamos com isso? Uma suspensão. Por quê? Ah os seus métodos foram rudes, nos disseram. Pelo amor de Deus. 
João vai vomitando toda sua forte indignação. Não quero ser mais o policial honesto para um sistema tão cruel, sujo, corrupto e mentiroso. Estou esgotado José. Casamentos e famílias não são baratos.  José suspira, passa as mãos no rosto, fica confuso, passa as mãos novamente no rosto e pergunta: “Quanto esse traficante tem de dinheiro”?
 

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