O espetáculo que a saudade não encerra

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 20/02/2026
Horário 05:30

Dizem que a vida é um palco, mas para o Teco e o Roy, essa nunca foi uma frase de efeito; era a pura geografia do cotidiano. Eles não apenas passaram pelo mundo; eles o decoraram com o riso e o compasso.
O Teco era o nosso Charles Chaplin de alma prudentina. Tinha o dom raro de entender que o mundo, às vezes, é barulhento demais e que a verdadeira graça mora no silêncio de um gesto. Ele não precisava de grandes alardes para desarmar a tristeza de alguém; bastava um olhar, uma mímica, um apelido, uma piada, um jeito de caminhar que parecia flutuar sobre as dificuldades da vida. Ele nos ensinou que sorrir é um ato de resistência e que a ternura é a forma mais refinada de inteligência. Enquanto ele estava por perto, o preto e branco dos dias ganhava a cor da comédia clássica.
Já o Roy era o dono do tempo. Mas não do tempo do relógio, e sim do tempo do coração. O seu pandeiro não era apenas um instrumento; era um passaporte. Roy colocou o ritmo debaixo do braço e foi ver o que o mundo tinha para oferecer, e o mundo, rendido, parou para ouvir o seu couro cantar. Ele rodou continentes, atravessou fronteiras, mas nunca deixou de ser aquele moleque prudentino que sabia exatamente onde o tempo forte deve cair.
A vida, porém, gosta de pregar peças dignas de um roteiro dramático. O destino às vezes se comporta como um mestre severo. O Roy, que viveu para o samba, escolheu a véspera do carnaval para fazer sua última pausa. Logo quando os tambores começavam a esquentar nas esquinas, o seu coração — aquele que bateu em tantos palcos internacionais — decidiu que já tinha cumprido sua partitura. Foi um silêncio inesperado, um compasso vazio bem no meio da folia.
Agora, imagino que o céu esteja bem mais interessante. Teco deve estar ensinando os anjos a tropeçar no vento com a elegância de um cavalheiro, enquanto Roy, com o pandeiro na palma da mão, marca a cadência de uma roda de samba eterna.
Eles nos deixaram uma lição bonita: a de que a vida só vale a pena se for para fazer alguém sorrir ou alguém sambar. A cortina pode ter se fechado por aqui, mas em algum lugar, o show desses dois continua. E nós, da plateia da saudade, aplaudimos de pé.
"Não há adeus para quem vive em nós,
Enquanto o riso e o samba continuar.
A arte deles não foi embora; apenas mudou de palco"...

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