Há gestos que dizem mais do que palavras. Quem vive a estrada sobre duas rodas sabe disso. Não é preciso parar, não é preciso falar. Basta um movimento breve da mão, um instante, e duas histórias que nunca se encontraram se reconhecem.
Há mais de 20 anos, quando comecei a percorrer estradas de moto, o cumprimento entre motociclistas era outro. Ao cruzar com alguém, levantava-se o indicador e o mindinho — um gesto comum, quase automático, carregado de estilo, de identidade, de pertencimento a um grupo. Era o sinal da época.
Mas, ainda no começo da minha jornada, aquilo não me parecia completo. Faltava algo. Talvez faltasse o que a estrada, com o tempo, ensina sem pressa: o valor do outro e a importância de reconhecer quem vem no sentido contrário.
Foi então que passei a cumprimentar de forma diferente. Dois dedos levantados em “V”. Não era um gesto pensado para aparecer. Era simples. Intuitivo. Para mim, significava paz. Respeito. Um desejo silencioso de que o outro seguisse bem, chegasse bem, voltasse bem.
Os anos passaram. As estradas continuaram as mesmas — com seus perigos, suas curvas e suas surpresas —, mas as pessoas foram mudando. O perfil de quem viaja de moto se ampliou. Novas histórias entraram na estrada e novos olhares passaram a compartilhar o mesmo caminho.
E, sem que ninguém decretasse, o gesto também mudou. Hoje, o que mais se vê ao cruzar com outro motociclista é o “V”. Discreto. Universal. Limpo.
O antigo sinal quase desapareceu. Ficou como lembrança de um tempo em que a identidade falava mais alto que a convivência.
Talvez isso diga algo maior. Talvez, com o tempo, tenhamos aprendido — mesmo que aos poucos — que a estrada não é lugar de divisão, mas de reconhecimento. Que, diante do risco e da distância, o outro deixa de ser estranho e passa a ser semelhante.
Antes, o gesto carregava mais quem éramos. Hoje, ele carrega mais o que desejamos. E isso muda tudo. Porque, no fim das contas, quando dois motociclistas se cruzam, não estão apenas passando um pelo outro. Estão, de algum modo, cuidando um do outro. Em silêncio. Em movimento. Em um segundo.
E às vezes, dois dedos levantados são suficientes para dizer, com simplicidade e verdade: Boa estrada.