O grito

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 20/09/2020
Horário 04:12

Durante essa semana eu assisti, com apreensão, o Pantanal em chamas. Imediatamente, veio à minha memória o trabalho de campo que pude realizar com alunos da geografia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente em 1991, juntamente com o professor Messias e o saudoso professor Armando Garms. Naquela época, a universidade pública ainda possuía recursos para investir melhor na formação de professores de geografia e o nosso curso realizou grandes experiências de campo, como o estudo coordenado pelo professor Bernardo no Parque do Xingu e do professor Thomaz pelos açudes do Nordeste, dentre vários outros! 
Nossa viagem pelo Pantanal sul-mato-grossense durou 15 dias. Tivemos a oportunidade de colocar o ônibus da Unesp numa balsa e descer o Rio Paraguai por algumas horas até o alojamento. Durante esse percurso, vivi uma experiência inesquecível... Estava observando a margem do rio quando, repentinamente, avistei uma onça pintada correndo em alta velocidade. Ela parou diante do grande rio e, num salto magistral, mergulhou nas águas caudalosas do Paraguai e começou a nadar com muito vigor. Em pouco mais de 15 minutos, a onça passou muito próxima da balsa e atravessou para a outra margem. Sacudiu-se toda para secar-se, como um gato, e num salto sobre um terraço com mais de 2,5 metros, prosseguiu sua viagem em alta velocidade pela imensidão da planície. Fiquei imaginando o poder daquele carnívoro... 
Dizem que o território de domínio de uma onça é de aproximadamente 100 km²! Não é por acaso que a onça aparece comumente nos mitos indígenas brasileiros como um animal solar. O colorido de sua pele, a sua voz de trovão e o brilho de seus olhos lhe conferem esta qualidade de animal ligado ao sol e à luz. 
Um tema recorrente em culturas variadas (Kaiapó, Timbira, Xerente, Apinaé, Krahô, Suruí, entre outros) é a estratégia dos seres humanos para desafiar a ordem divina e roubar o fogo de seus donos originais: as onças. E o Brasil destes tempos sombrios, utilizando do seu domínio sobre o fogo, incendiou o Pantanal, matando muitas onças e qualquer outro animal que encontrou pelo caminho. Há quem sorria por aí, com ares de vencedor e de mensageiro do progresso... Mal sabe ele que, ao utilizar o poder do fogo para destruir, atiça a ira da Grande Onça Celeste - o ser primordial da cosmologia guarani, causador da escuridão, da desordem e do desequilíbrio. A partir de seu poder incomensurável, a Grande Onça Celeste estabelecerá seu reinado de destruição e, com o caos instalado, decretará o fim do mundo de seus algozes. Daí, ouvir-se-á o grito. O grito que ecoa na mata, quando o índio Pena Branca chama a guerra! 
 

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