O mal da era Robinho 

OPINIÃO - Toninho Moré

Data 27/07/2021
Horário 05:00

Desde os dribles do atacante Robinho do Santos contra Rogério em clássico com o Corinthians em 2002, o futebol brasileiro entrou numa fase triste. Os garotos que jogam futebol pelas ruas do país passaram a ver naqueles dribles a principal síntese do futebol. “Passar o pé em cima da bola várias vezes e sair em velocidade”, e só. Neymar é destes aprendizes do famoso drible e o evidenciou ainda mais. A jogada raramente acaba em gol, mas provoca euforia no público e assim tem sido. É um tipo de “mal” para toda uma geração. Explico.
Ninguém duvida que Neymar é um jogador genial, pode decidir jogos com sua incrível velocidade e precisão nos dribles. Mas também Neymar caiu na onda de Robinho e ainda foi mais longe. Criou um estilo de bater pênalti que dói. Primeiro o jogador corre de um lado para o outro. Quando sai em direção a bola, começa a sapatear. Sapateia, sapateia e na hora do chute para marcar o gol, joga a bola nas mãos do goleiro. Isto aconteceu duas vezes contra a Alemanha na final da Eurocopa. Dois jogadores que entraram em campo somente para bater os pênaltis foram na onda da coreografia brasileira, e perderam, não só as penalidades, mas a taça que nunca ganharam.
Isso se chama frescura. Coreografia para bater pênalti? Gosto do futebol, joguei minhas peladas e sei o que é um jogo valendo dois pontos. Não tem brincadeira não. No pênalti, o básico e eficiente é correr para bola, escolher um canto e encher o pé. “Sapatear”, deixa para a escola de dança.
Outra coisa. É claro que cada um pode fazer o que quiser com o corpo. Não tenho preconceitos. Mas digo, a evolução do futebol no Brasil nos últimos anos saiu do contexto do próprio futebol. A única coisa que mudou foram os corpos tatuados, o cabelo colorido, alguns até parecidos com “ninhos de pássaro”. Enfim. O jogador parece mais um outdoor do que um atleta. Não falta tempo para passar horas no tatuador ou cabeleireiro, mas falta tempo para ficar além do horário no campo, aprendendo a bater faltas ou, pasmem, até a chutar.
O que antigamente era uma arte, maestria, hoje virou raro. Não há mais gols de falta. O cobrador sempre chuta por cima ou acerta a barreira. Não há noção nem para cobrar escanteios. Em jogo recente do Corinthians, o meia cobrou dois escanteios seguidos que não chegaram nem na risca da pequena área. Os jogadores estão treinados ou orientados para marcar e dar passes de lado. Ninguém tenta um drible de linha de fundo ou arranque em direção ao gol. Chutes a longa a distância também são difíceis de se ver. Digo. De dez jogadores profissionais, pelos menos sete deles não sabem chutar. É preciso treino, estudo e adquirir este fundamento, que é primordial para o esporte.
Escrevo tudo isso, porque assistir a um jogo de futebol no Brasil virou um tormento. Os times abdicaram da arte e passaram a se defender com todos os jogadores atrás. Tentam o contra-ataque, numa tática única. Se der certo fazer um gol tudo bem, senão, fiquem atrás mesmo. O cenário futuro do futebol brasileiro é sombrio. Não vejo analistas de futebol falarem nesta postura torpe, modismo desnecessário que tira o principal foco da modalidade, a beleza de um conjunto de atletas, com técnica, disciplina, raça e força.
Não achei ruim o futebol apresentado pelo Brasil na final contra a Argentina. O time de “Los Hermanos” abdicou do futebol e partiu para a pancadaria com a conivência do árbitro. Pelos menos dois deles deveriam ter sido expulsos por jogadas violentas. Acho, no entanto, que faltou autoridade para os jogadores brasileiros. O adversário entra, arrebenta o companheiro no meio e ninguém faz nada. Tem que chegar junto, não digo revidar com briga, mas falar alto, impor condições psicológicas. Atitude de carneirinho não leva a nada. Não vou citar nomes de jogadores, que ao meu ver estavam lá como se a vida fosse como as pedaladas do Robinho. Uma pena. Nova postura, já!
 

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