O menino das meias vermelhas

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 11/10/2020
Horário 06:40

Todos os dias, ele ia para o colégio com meias vermelhas. Era um garoto triste, procurava estudar muito, mas na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa. Os outros guris zombavam dele, implicavam com as meias vermelhas que ele usava. Um dia, perguntaram por que o menino das meias vermelhas só usava meias vermelhas. Ele contou com simplicidade: – “No ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo. Botou em mim essas meias vermelhas. Eu reclamei, comecei a chorar, disse que todo mundo ia zombar de mim por causa das meias vermelhas. Mas ela disse que se me perdesse, bastaria olhar para o chão e quando visse um menino de meias vermelhas saberia que o filho era dela”. Os garotos retrucaram: – “Você não está num circo! Porque não tira essas meias vermelhas e joga fora?” Mas o menino das meias vermelhas explicou: – “É que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora. Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas. Quando ela passar por mim vai me encontrar e me levará com ela”.

A história publicada por Carlos Heitor Cony, já citada neste espaço, é atual quando se pensa nos sinais trocados que às vezes damos aos outros para despistá-los do correto caminho a fim de não nos perturbarmos com intromissões alheias. Há sem dúvida crianças e adolescentes solitários e tristes chorando por alguém que se foi, seja por morte morrida, seja por morte de afeto. Desses que também colocam “meias vermelhas” na esperança de que sejam identificados e tornados únicos em meio à multidão. Todos querem ser tirados do meio do mundo (a casa de medo) e levados para o aconchego de um lar (a casa do amor, a intimidade do coração).

Também há adultos ainda vestindo meias vermelhas. Saídos um dia de casa, anseiam por serem reencontrados por seus pais, tirados das ilusões que anteriormente alimentadas agora só os angustiam, esvaziam e matam. Esses adultos “perdidos” perderam muitos e grandes tesouros: família, filhos, amizades... a fé. Todos temos um pouco desse menino que calça meias vermelhas. Precisamos e queremos carinho, afeto, atenção, aconchego, esperança. Nossos olhos transmitem essa busca, revelam um pouco da nossa tristeza e da fome de carinho e de ternura que nos consome... Vivemos a espera de alguém para nos encontrar. O contrário também é verdadeiro. Há pessoas ao nosso redor vestindo meias vermelhas, desejando ser reencontradas, amadas, queridas, levadas para casa, acolhidas, reestruturadas. Há tanta dor num coração que sofreu abandono. Quem poderá mensurá-la?

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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