O avanço da era digital intensificou a valorização de padrões estéticos levando ao aumento da pressão social relacionada ao excesso de peso. Nesse cenário, medicamentos originalmente indicados para o tratamento do diabetes tipo 2, como a tirzepatida - comercializada como Mounjaro, passaram a ganhar destaque no contexto da obesidade. Atualmente, seu uso com a finalidade exclusiva de emagrecimento tem se tornado cada vez mais frequente e, por vezes e erroneamente, sem a devida orientação profissional.
O Mounjaro é um medicamento que atua no controle da glicose sanguínea, contribuindo para a redução da hemoglobina glicada, explica a Profa. Dra. Paula Faleiros, do curso de Odontologia da Unoeste (FOPP/Unoeste). Além disso, pode trazer benefícios metabólicos adicionais, como a diminuição da pressão arterial e dos níveis de triglicerídeos.
Seu mecanismo de ação está relacionado à ativação dos receptores de GLP-1 e GIP, hormônios envolvidos na regulação da glicemia e do apetite. Em termos simples, o medicamento age como uma “chave” que se liga a esses receptores, estimulando a liberação de insulina e retardando o esvaziamento gástrico. Como consequência, a pessoa sente saciedade por mais tempo, o que favorece a redução da ingestão alimentar.
No entanto, como qualquer medicamento, o uso da tirzepatida pode causar efeitos colaterais. Os mais comuns são distúrbios gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal. Em alguns casos, também podem ocorrer complicações como cálculos biliares.
Mas afinal, o Mounjaro pode afetar a saúde bucal? A resposta é: sim, principalmente quando o uso é prolongado e não há acompanhamento adequado. Um dos possíveis efeitos é a redução do fluxo salivar. A Profa. Paula elucida que a saliva desempenha papel essencial na proteção da cavidade bucal, pois ajuda a hidratar a mucosa, proteger dentes e gengivas, neutralizar ácidos e controlar a proliferação de bactérias. Quando sua produção diminui, aumentam os riscos de cáries, inflamações gengivais, doenças periodontais, halitose, alterações no paladar e xerostomia, que é a sensação de boca seca.
Outro ponto importante, frequentemente associado ao uso desse tipo de medicamento, é uma condição caracterizada pelo retardo do esvaziamento do estômago (gastroparesia). Essa alteração favorece quadros de desidratação e desequilíbrio eletrolítico, além de aumentar o risco de refluxo gástrico. O contato frequente dos ácidos do estômago com os dentes pode provocar desgaste do esmalte dentário, situação que pode ser ainda mais agravada em episódios repetidos de vômitos, destaca a Profa. Paula.
Por isso, além da necessidade do acompanhamento médico para o uso do Mounjaro, o acompanhamento odontológico se faz oportuno para identificar precocemente possíveis alterações na cavidade bucal e prevenir complicações. Esses monitoramentos são fundamentais para garantir não apenas a perda de peso segura, mas também a manutenção da saúde de forma integral.
Matéria integrante do projeto de extensão universitária (PROEXT-REITORIA 31216/2026 - UNOESTE) sob coordenação da Profa. Dra. Christine Men Martins Batista. Discentes do curso de Odontologia da Unoeste que escreveram a matéria: Giovanna Florencio; Livia Rissi; Luana Rossi; Maria Eduarda Falcao; Maria Vitoria Pretelli; Milena Guedes; Sara Reis; Thaoana Villela. Docentes colaboradores: Adrieli Neves, Larissa Matuda