O passageiro da "Carona" eterna

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 01/05/2026
Horário 06:00

Dizem que o tempo é um editor rigoroso, que vai cortando parágrafos e apagando notas de rodapé até que só reste o essencial. Mas, em Presidente Prudente, o tempo parece ter feito uma concessão especial. Vinte anos se passaram e, se você fechar os olhos perto das bancas de jornal ou no balcão de um café no centro, ainda consegue ouvir o farfalhar das páginas de O Imparcial e o som do riso contido de quem acabara de ler a "Carona".
Jacintho Ferreira da Silva, o nosso Tito Júnior, não escrevia com tinta; escrevia com o olhar. Ele possuía aquela "visão de raio-x" que só os cronistas de raça têm: a capacidade de enxergar uma epopeia num tropeço na calçada da Maffei ou uma comédia dramática na fila do banco.

A rotina do afeto
Para o prudentino daquela época, ler o Tito era um ritual litúrgico, sagrado como o café da manhã. Ele não era um autor distante, encastelado em palavras difíceis. Pelo contrário. Ele era o vizinho de papel, o amigo que sentava ao seu lado no banco da praça e apontava: "Olha só aquilo ali...".
Sua coluna era um espelho onde a cidade se penteava. A ironia era fina, nunca cortante; o humor era o tempero, nunca o prato principal. O prato principal era a humanidade. Tito tinha o dom de nos desarmar. Você começava a leitura esperando uma piada e terminava com um nó na garganta, percebendo que, naquela crônica sobre um assunto qualquer, ele tinha acabado de descrever a sua própria vida.

O silêncio que ecoa
Lembro-me do medo que ele tinha de parar. Aquele "vazio" que às vezes assombra quem vive de criar. "Não volto mais", ele dizia, talvez cansado do peso de ser a alegria de tantos. Mal sabia ele que sua ausência seria um silêncio barulhento demais para a nossa aldeia.
"Há talentos que são substituídos. Outros, como o de Tito, tornam-se patrimônio imaterial da memória."
Hoje, o jornal chega, as notícias voam pelas telas de vidro e a velocidade do mundo não permite mais o "café esfriar". Mas falta aquele respiro. Falta a pausa para a "Carona".
Tito Júnior partiu, mas deixou a chave da cidade guardada entre as linhas de seus textos. Quem quiser reencontrar a verdadeira Presidente Prudente — aquela que ri de si mesma, que se emociona com o trivial e que valoriza o encontro — ainda precisa pedir licença e subir naquele banco de passageiro.
Porque a viagem que o Tito nos proporcionou não tinha destino final; o destino era o próprio caminho, percorrido com a leveza de quem sabia que, no fundo, a vida é a crônica mais bonita de todas.
Vinte anos depois, Tito, a gente ainda está no ponto, esperando o jornal abrir.
 

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