Quando eu era estudante de Medicina, no fim dos anos 90 e no começo dos anos 2000, o problema que mais angustiava os pediatras era a criança magra demais. O temor estava na desnutrição, no peso abaixo do esperado, na curva de crescimento que caía, no corpo que não conseguia acompanhar a infância. Era esse o retrato que mobilizava consultas, exames e orientação às famílias.
Agora o cenário mudou de forma radical. Em março de 2026, o Atlas Mundial da Obesidade trouxe um dado que ainda não parece ter sido plenamente digerido: pela primeira vez na história registrada, o número de crianças com obesidade superou o de crianças com baixo peso no mundo. Não é uma previsão. É o presente.
No Brasil, a dimensão do problema impressiona. Hoje, 16,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com sobrepeso ou obesidade. É mais do que a população inteira do Rio de Janeiro. E, se a trajetória atual continuar, metade das crianças brasileiras poderá estar nessa condição até 2040.
Muita gente ainda trata isso como um assunto estético, como se o excesso de peso na infância fosse apenas uma fase desconfortável. Não é. O que começa na balança rapidamente aparece no metabolismo, na pressão arterial, no fígado, na glicose, no colesterol. Entre as crianças brasileiras com peso excessivo já diagnosticadas, quase 1,4 milhão têm hipertensão arterial atribuída ao peso corporal. Outras 500 mil vivem com diabetes. Estamos falando de meninos e meninas no ensino fundamental, não de adultos sedentários.
O coração de uma criança foi feito para atravessar décadas. Mas ele começa a pagar a conta cedo quando precisa funcionar sob uma carga que o corpo ainda não sabe administrar. A gordura visceral, acumulada ao redor dos órgãos, produz inflamação, desorganiza sinais metabólicos, eleva a pressão e favorece alterações vasculares. A doença cardiovascular não começa de repente aos 50 anos. Em muitos casos, ela ensaia os primeiros capítulos muito antes.
Parte dessa história está diante dos nossos olhos, todos os dias, na rotina das famílias. O consumo de ultraprocessados cresceu de forma marcante nas últimas décadas. A embalagem é prática, o sabor é intenso, o marketing é eficiente e a recompensa é imediata. A criança, sozinha, não tem defesa suficiente contra isso.
Mas a explicação não cabe apenas no prato. Se coubesse, países com renda semelhante à nossa teriam resultados parecidos, e não têm. O ambiente em que a criança vive organiza o risco. Escola, família, urbanismo, política de alimentação, publicidade, tempo de tela, rotina de sono. Nada disso age isoladamente.
O filho que ganhou peso além do esperado não é sinal de preguiça, desleixo ou falha moral. É muitas vezes o resultado previsível de um ambiente que mudou mais rápido do que a nossa capacidade de reagir. O custo humano disso será enorme. Ignorar isso agora é aceitar que uma geração inteira chegue à vida adulta já doente. E depois vamos fingir surpresa quando infarto, diabetes e esteatose aparecerem cedo demais, como se tivessem surgido do nada.