Olhei para o quadro da Guta e veio-me uma saudade mortal. Saudade do meu tempo de criança, saudade do rio, saudade de minha mãe, meu pai, meus irmãos... O quadro que a minha sobrinha Guta pintou a óleo retrata minha casa como ela era, fielmente, a ponto de a gente olhar para ele e pensar estar vendo minha casa através de uma janela. Foi muito feliz quando o pintou e deixou-me muito feliz quando me presenteou com ele. Está na minha sala, em lugar de destaque. Bem, minha sala só tem lugar de destaque, tão pequena é. Mas esse quadro fica à frente de quem se senta ao sofá. Pronto, é um lugar de destaque.
E eu estava justamente sentado no sofá e acabara de ler um conto gaúcho escrito por J. Simões Lopes Neto. Lopes Neto escreve fazendo a gente ver o personagem falando à nossa frente, com seus termos gaúchos, faz-nos ouvir o seu sotaque. Coisas como: “Quando íamos mal de vida, já pelas caronas, nos bandeávamos para o outro lado da linha; lá se churrasqueava, fazia-se uma volteada de potrada e voltávamos à carga, folheiritos no mais!” Estava eu pensando naquele conto, enlevado, com a cabeça num estado muito gostoso, relaxado, como se me preparasse para uma oração.
Assim, pensando e olhando para o quadro, embora uma coisa não tivesse nada a ver com a outra, salvo o meu costume de me transportar para a minha terra cada vez que leio alguma coisa com termos regionais. Aí, esqueci o conto e meu pensamento entrou pelo quadro da Guta, levando-me ao tempo de escola, quando saía por aquele portão levando minha bolsa (a mochila de hoje), com todos meus cadernos, o tinteiro na mão, para não derramar no material, lanche embrulhado em papel de padaria (geralmente pão com ovo frito), em direção ao Grupo Escolar.
Assim fiquei ali, enlevado, olhando o quadro, a casa amarelo sujo, de esquina com um pequenino jardim à frente, porta e janelas desproporcionais, está colocada de forma que se dá pra ver dois dos seus lados. No lado em que as janelas dão diretamente para a calçada da avenida, ficava o quartinho das bananas, nome que queria dizer isso mesmo, onde se guardavam bananas verdes esperando que amadurecessem. Na outra face, a entrada principal, a janela de duas “folhas”, de onde mamãe costumava olhar a rua, à tarde sentadinha em uma cadeira de braços. Por fora, entre a janela e a porta subia um cano que ultrapassava o telhado da casa de pé direito alto e que servia para a antena de TV. Do outro lado outra janela, alta, também de duas folhas, aberta, pintada de marrom, como as outras. No quadro uma das folhas estava aberta e eu me lembro muito bem que mamãe sempre mandava que a gente a fechasse, pois, essa face da casa ficava de frente para o pôr do sol e à tarde ficava muito quente por ali.
Sem susto nem admiração, como a coisa mais comum desta vida, eu me vi no quadro, entrando pelo portãozinho de ferro, com aquele barulho característico de portão que há muito tempo não vê graxa nos seus gonzos. Entrei, subi o degrauzinho junto do ferro de limpar os pés e entrei. Sumi por alguns segundos de minha própria vista.
Aí a folha da janela fechou-se. Interessante que eu pensei cá comigo:
- Deve de ser de tarde...
Foi quando minha mulher disse:
- Ué! Tá dormindo? - visto que eu não costumo dormir à tarde.
- Cochilei – disse e me levantei para tomar um copo d’água na cozinha.
Entrei na cozinha, mas, antes de tomar a água parei, sentindo uma coisa estranha voltei. Olhei para o quadro e vi que a janela agora estava fechada.