Eu amo caminhar. Aliás, eu sou viciado em caminhar. Começou como um exercício para manter o físico e equilibrar a pressão alta, mas depois se descontrolou de tanto que gosto. Tanto que hoje, chego a fazer até 10 quilômetros diariamente. E se você me perguntar como encaixo isso nas rotinas obrigatórias do trabalho e da vida em família, não sei dizer. Só tem tempo quem não tem tempo.
Enfim, mas fiz este prólogo para dizer que é justamente nestas caminhadas que eu vejo a vida acontecer ao meu redor e acho até que isso que me fascina mais do que o próprio exercício em si. Uma vez que além de jornalista e escritor, sou fotógrafo e enxergo a vida aos recortes e eles me inspiram a pensar e a viajar em cada quadro.
Tem um rapaz que sai da obra de um prédio todo dia no mesmo horário que eu passo. Magro, mas musculoso, desses que o trabalho já desenha o corpo sem precisar de academia. Lá dentro deve trabalhar com a roupa suja de cimento. Quando sai, veste camiseta larga, corrente, calça preta justa. Tem cara de que ouve rap no fone que esconde sob o boné. Sai da obra e vira outro personagem, como se trocar de roupa fosse também trocar de mundo.
Mais adiante, um trailer de salgados. Ali o cheiro de pastel frito anuncia o fim da tarde. É um casal que comanda a fritura com uma sintonia silenciosa: ela enrola a massa, ele controla o óleo. Ficam na saída de um prédio de escritórios, e sempre tem um ou outro de gravata solta que para ali como quem se permite um pequeno pecado depois de um dia inteiro de canseira.
Na esquina, dentro de um café de vidro fumê, uma mulher de meia idade ocupa a mesma mesa há semanas. Olha para a rua, mas não vê quem passa. Tem o rosto de quem pesa coisas. Aos 50, talvez esteja decidindo o que ainda cabe renegociar no casamento, o que já não pode exigir dos filhos, o que o corpo começa a cobrar. Ela toma café devagar, como se cada gole desse o tempo exato de uma escolha.
Do outro lado da avenida, um rapaz de 20 anos passeia com quatro cachorros enormes. Desses tipo Golden. Ele é todo tatuado, braços fechados e anda com a atenção de quem faz escolta: a cada esquina, olha para um lado, para o outro, puxa a guia no momento certo. Os cães obedecem e ele parece saber que ali, a matemática é básica: pegou quatro, tem que entregar quatro.
Na farmácia do quarteirão seguinte, a atendente não atende. Ela suporta. Ao longo dos dias e aos poucos juntei os gestos: o suspiro antes de cada pergunta, o jeito de empurrar o remédio e de passar o cartão. Deve ter tido sonhos. Talvez odontologia, talvez outro bairro, outra vida. Mas ficou ali, entre remédios genéricos e a paciência dos clientes, e o desgosto transborda no balcão. Não é má, não. É só alguém que ainda não perdoou o que a vida fez com ela.
Até que um dia, atravessando a rua, alguém me parou. Era uma senhora que vivia sentada na praça cuidando dos netos. Ela me olhou com a coragem de quem já não tem tempo a perder com timidez e perguntou quem eu era. Disse que há semanas me via passar, sempre no mesmo passo, bermuda preta, camiseta preta, fone azul no pescoço, cabelo branco, corpo que ainda se mantinha no lugar por pura teimosia dos exercícios. Ela não sabia de onde eu vinha, nem para onde ia, mas tinha certeza de que ali havia um propósito.
Fiquei sem graça, agradeci e segui. Só depois, já longe, percebi que ela me devolveu aquilo que eu faço com os outros todos os dias: me transformou em personagem. E confesso que não é ruim ser visto assim, como quem anda com um destino próprio. É, a gente só passa.