O riso grotesco

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 02/05/2021
Horário 05:00

O Brasil bateu a marca dos 400 mil mortos pela Covid-19 apenas 36 dias após totalizar 300 mil. Muita dor pela perda de amigos e de familiares... tragédia sem fim. E o país do canto e riso fácil, se fez pranto e melancolia. 
Tentando encontrar um rumo da escrita numa semana tão difícil, ouço vozes no fundo do meu quintal. Embalados por cerca de 3 mil mortes por dia (duas mortes por minuto), alguns vizinhos não se cansam de tocar viola e festejar por muitas horas. Pela quantidade de vozes sobrepostas, imagino que a aglomeração é grande. Eles riem muito e interrompo a minha escrita com devaneios sobre o poder do riso e do escárnio.
Distingo a voz de uma menina que alterna comentários curtos com volumosas gargalhadas. Observo que conversa com algum rapaz com forte humor ácido. Ao fundo, uma sinfonia de outras vozes de diferentes timbres. Do que se alimenta o riso em tempos tão macabros? Daí eu me lembro da “Balada de um palhaço”, peça teatral de Plínio Marcos, que assisti no final dos anos de 1980. Bobo Plin, o palhaço melancólico, busca redescobrir o prazer de atuar e admirar os bigodes-sapatões-guizos-pompons-bolas-balões-babados dos incríveis artistas que queria ser. E seu amigo Menelão lembra duramente que palhaço não paga entrada do espetáculo. Quem paga é que ri! No embate entre o ser e o ter, Bobo Plin tenta redescobrir o prazer de atuar. Para seu oponente Menelão, isso de crise é besteira; o que importa é o público na arquibancada e dinheiro no bolso. 
Cenas tão distantes no tempo, os palhaços da balada de Plínio e o jovens de riso grotesco do fundo do quintal possibilitam a tomada de consciência do ridículo, do monstruoso e do absurdo que se transformou o Brasil. O país do sorriso largo e extrovertido, típico de pessoas abertas e generosas, abre passagem para o riso grotesco, que expressa a linguagem do excesso, do exagero e do hiperbolismo. 
O papel dessa demasia em fomentar o aspecto alegre e festivo em plena pandemia, ao invés de inspirar terror e medo, manifesta-se como elemento cômico disforme e horrível. É preciso rir para não chorar. Rir até a exaustão, não mais para brincar, mas para não chorar. Mas eu também nunca esqueço do poder revolucionário do riso carnavalesco e popular, capaz de revelar uma sensibilidade crítica de mundo. E aqueles que partiram serão algum dia dignamente invocados, serão lembrados. Para isso, será preciso reinventar a nação.
 

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