Os meninos do Sete Copas 

Giselle Tomé

CRÔNICA - Giselle Tomé

Data 13/06/2026
Horário 06:00

Uma das coisas de que mais gosto da vida no interior é a possibilidade de testemunhar amizades que sobrevivem ao tempo. Ainda existem pessoas que mantêm os amigos da infância, com quem cresceram, atravessaram a adolescência e chegaram à vida adulta preservando um vínculo que parece imune à distância e às mudanças da vida. Pode parecer algo comum, mas, nos dias de hoje, tornou-se quase uma raridade.
Meu marido é um desses privilegiados. Ele e seus amigos seguem compartilhando a vida. Às vezes passam meses sem se encontrar, mas basta uma reunião para que tudo volte exatamente ao lugar de sempre, como se o tempo tivesse apenas esperado por eles. Talvez seja isso que chamam de amizade verdadeira: aquela que não depende da presença constante para permanecer presente. 
O mais bonito é perceber que eles cresceram juntos, dividiram descobertas, aventuras e inseguranças. Depois vieram os casamentos, os filhos, os batizados e muitos acabaram sendo padrinhos uns dos outros. As esposas os apelidaram carinhosamente de "os meninos do Sete Copas", distrito de Indiana (SP), onde viveram. E o nome faz todo sentido. Porque basta estarem reunidos para que aqueles homens, hoje pais de família e maridos, voltem a agir como garotos. A famosa 5ª série continua firme e forte. 
Há dias estamos vivendo uma espécie de contagem regressiva por causa de uma pescaria que resolveram organizar. Dessas em que pescar talvez seja apenas um detalhe. Afinal, quando eles se encontram, surgem tantas lembranças, tantas histórias interrompidas e retomadas, que fico até em dúvida se haverá tempo para lançar o anzol no rio. 
O grupo criado para organizar o fim de semana já movimentou mais conversa do que muito encontro de família. Fizeram camisetas, encomendaram canecas e reuniram tanta tralha de pesca que parece ser necessário um veículo extra só para transportar os equipamentos. No meio das mensagens, misturam-se listas de itens de pescaria, compras de mercado, ferramentas e, principalmente, piadas que só fazem sentido para quem compartilha décadas de convivência. 
Nós, as esposas, acompanhamos tudo de longe. Entre um áudio e outro, observamos a empolgação deles e também a beleza rara de uma amizade construída ao longo de tantos anos. São pessoas que testemunharam quem eles foram antes de serem os homens que conhecemos hoje. Estavam presentes nas aventuras da infância, nas descobertas da adolescência e nos primeiros passos da vida adulta. Esses amigos carregam uma espécie de memória compartilhada. Guardam histórias que o outro esqueceu, detalhes que a família nunca soube, episódios que voltam à tona sempre com a clássica pergunta: "Lembra daquele dia em que...?". E, de repente, todos riem de algo que aconteceu há 30 anos como se tivesse sido na semana passada. 
Talvez seja esse o maior privilégio de cultivar amizades antigas: ter alguém que conheça a nossa versão mais simples, antes das responsabilidades, dos títulos e das preocupações. Alguém que ainda enxerga o menino escondido dentro do homem.
Eles contam os dias para a pescaria. Eu fico daqui admirando esse patrimônio invisível que construíram sem perceber. No fim das contas, talvez até tragam alguns peixes para casa, mas tenho certeza de que voltarão carregando algo muito mais raro: as mesmas risadas da infância, algumas histórias recontadas pela centésima vez e a confirmação de que existem amizades capazes de vencer o tempo. Enquanto o mundo muda depressa demais, eles seguem sendo apenas os meninos do Sete Copas.

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