Os oligarcas

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 17/01/2021
Horário 07:06

O colapso da União Soviética se deu nos anos finais da década de 1980. O modelo comunista de governo, implantado em 1917, se desgastou incompatível com a realidade da globalização. Uma corajosa tentativa de mudança de anos de domínio comunista para o capitalismo de livre mercado seria o futuro e o desafio da extinta União Soviética. 
Em 1991, uma nova geração desejava liberdades econômica e política. Seu líder carismático era Boris Yeltsin. Era um homem do momento para liderar essa grande mudança. Uma nova Rússia poderia estar nascendo. O otimismo era forte nas mentes e corações dos russos. A bandeira vermelha havia sido trocada por uma bandeira tricolor que tremulava ao sabor dos novos tempos. Mas não sabiam nada de capitalismo. Não nasceram com a cultura da livre iniciativa e desconheciam o que era produtividade e competitividade. 
A ganância adormecida esperava para botar seus ovos de serpentes. Seria um salto do penhasco. Gorbachev, no tempo da Perestroika, tinha preparado o ambiente relaxando o veto às empresas privadas. Os russos tinham a imagem do capitalismo como aquelas pessoas que fumavam charuto com muito dinheiro no bolso. Imaginavam que ficariam ricos de maneira fácil e automática. O Estado não iria cuidar mais de suas vidas. A livre iniciativa parecia boa opção para serem donos do seu próprio destino. 
No começo foi um capitalismo de gângster, com o estado fraco e flexível como um elástico. O crime organizado se aproveitou da nova era capitalista. Foi um capitalismo do velho oeste americano. Ex-coronéis da KGB faziam a segurança dos novos milionários russos. Mas a frase realista de Honoré de Balzac continua e continuará sempre atual: "Por trás de toda grande fortuna há um crime". Os novos milionários eram chamados de os oligarcas ou magnatas russos. Aproveitaram do caos se beneficiando das privatizações e de milhões de russos empobrecidos que vendiam os bônus (esquema criado onde cada cidadão russo recebia 40 dólares de bônus) a preços muitos baixos. 
Anatoly Chubais criou uma nova economia capitalista na Rússia. Abriram bancos numa economia desregulada que permitia que o Banco Central gerasse hiperinflação, e emprestavam dinheiro ao Estado falido tendo como garantia as ações das empresas estatais mais valiosas. Exploravam as riquezas naturais do país e licenças para exportar e importar bens baratos. Tudo sob a chancela de Boris Yeltsin. Adquiriram metade dos ativos da Rússia e dominavam a política.  
Eram sete os oligarcas onde os maiores eram de origem judaica. O mais rico era Boris Berezovsky, que tinha os direitos exclusivos na venda de carros Lada, que também controlava a mídia junto com outro oligarca, Vladimir Gusinsky. Mikhail Khodorkovski comprou a gigante de petróleo Yuka por 300 milhões de dólares. Foi avaliada em 5 bilhões de dólares. Vladimir Potanin, Piotr Aven, Mikhail Fiedman e Alexander Smolensky controlavam mineração e aviação. Quando Putin subiu ao poder, os sete oligarcas esperavam que cumprisse o acordo de deixar tudo como antes. Mas a natureza humana é sinistra. Ele tomou de volta estatizando todas as empresas, voltando à velha fórmula do "Estado", empresário e pai dos pobres. 
Prendeu Khodorkovski que cumpriu dez anos de prisão. Boris Berezovsky e Gusinski fugiram para a Inglaterra. Berezovsky faleceu em 2013 em circunstâncias ainda mal esclarecidas. O reinado dos sete oligarcas tinha chegado ao fim, menos suas fortunas. A democracia é como uma criança esperando Papai Noel, para alguns traz presentes generosos e para muitos traz a ilusão de acreditar que um dia ela vai aparecer.
 

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