Naquela Presidente Prudente dos anos 1960 e 70, a eternidade tinha dia e hora para começar: as manhãs de domingo. A primeira vez que meus olhos e ouvidos testemunharam o milagre d’Os Sombras não foi sob o teto de um salão de baile, mas banhada pelas luzes místicas dos programas de auditório da Rádio Comercial. Ali, sob a condução magnética e inesquecível de Hélio Athia, o rádio deixava de ser apenas ondas no ar para se tornar eletricidade pura, cruzando as distâncias da Alta Sorocabana. Vendo a plateia suspirar em uníssono, compreendi, ainda menino, que a nossa “amada aldeia” havia descoberto a sua própria tradução do paraíso.
O conjunto operava como uma engrenagem perfeita, onde a amizade se fundia ao talento na genialidade musical de Júlio Júnior, um dos grandes arquitetos dessa epopeia. Ao seu lado, a pulsação do sonho ganhava corpo e alma: Carrarinha ditava o ritmo do tempo na bateria com a precisão cirúrgica de um mestre; Jair tecia a harmonia acolhedora no violão base e na gaita; enquanto Zaidel, com as mãos deslizando pelo órgão, desenhava o tapete de nuvens onde a nossa juventude flutuava.
Mas era quando a noite caía e os salões do Tênis Clube ou da Apea se vestiam de gala que a música d’Os Sombras se transformava em prece. O sopro do piston do saudoso Serginho (in memoriam) não era mero som; era o chamado dos anjos cruzando o salão, arrepiando a pele e convocando as almas para a pista. No reino do virtuosismo, o coração da gente suspendia o batimento para assistir ao solo magnífico de Fininho na guitarra — que destilava o fogo e a malícia de Santana —, perfeitamente alinhado ao contrabaixo seguro e à alma gigante do querido Edmilson Pequeno, o nosso eterno Baixinho, cuja grandeza artística sempre desafiou o apelido carinhoso, mantendo‑se até hoje como um multi‑instrumentista admirável.
A banda se metamorfoseava diante de nós como um camaleão de sentimentos. Havia o instante em que Ernani (in memoriam) assumia o microfone e, com uma afinação cristalina e flutuante, nos transportava para o universo dos Bee Gees com “I Started a Joke”, amparado pela sofisticação do maestro Bayard na guitarra e pelo requinte exato de Antony ao piano.
Mas ah… o ápice do encantamento estava reservado para quando o mestre Pelezinho (in memoriam) fechava os olhos para entoar “Reflection of My Life”, do Marmalade. O mundo exterior, com todas as suas urgências, simplesmente deixava de existir. E quando o grupo unia as vozes no vocal de “Without You” — “I can’t live if living is without you / I can’t live, I can’t give anymore” —, o salão não ouvia apenas uma banda, mas um autêntico coral de querubins.
Dançar com Cristina Miranda ao som dessas melodias dilacerantes era a tradução exata do romantismo puro, quase sagrado em sua inocência. Enquanto isso, na pista, o eterno playboy Nenê Medeiros ditava a moda e o estilo, personificando o ápice de uma geração que acreditava que a beleza e a música podiam mudar o mundo. Eu, devorado por uma timidez juvenil, assistia a esse cenário cinematográfico com os olhos brilhando, consciente de que testemunhava os nossos anos dourados.
A introdução de cada música lenta era o sinal do ritual. Os rapazes cruzavam o salão com as palmas das mãos suadas pelo nervosismo; as moças ajeitavam os vestidos, tentando disfarçar o sobressalto no peito. E então, o milagre da conexão se consumava: os rostos colavam‑se, permitindo sentir o calor da pele alheia e o perfume suave no pescoço. Uma mão espalmada com respeito nas costas, a outra acolhida com ternura junto ao peito, e os passos miúdos, quase sem sair do lugar, enquanto a voz de Pelezinho tocava o azul do firmamento.
Ali, naquele transe coletivo, o coração batia tão forte contra as costelas que parecia querer saltar do peito para conversar, sem intermediários, com o coração do outro. Era uma pulsação única, o ritmo sagrado de uma juventude que amava intensamente na cadência daquele slow.
O tempo passou com a pressa inevitável dos rios. Os amplificadores silenciaram e a fumaça dos holofotes dissolveu‑se no passado. Mas para quem viveu aquela era de luz, para quem teve o privilégio de ter a vida embalada por esses deuses da nossa boemia, a música nunca parou. Ela continua ecoando, intacta, toda vez que a saudade aperta o peito e nos devolve à pista de dança da nossa eterna juventude. Afinal, a poesia composta por Júlio Júnior desafiou o esquecimento e ainda ecoa, límpida, nos salões do infinito:
“Olha a menina / veja como é lindo / o céu cheio de estrelas / nesse mar sorrindo / de quem é esse céu? É seu / de quem é esse mar? Também é seu / só falta você saber amar / então você verás / o mais puro do céu / nesse teu lindo olhar...”