Para além da forma: como ler o espaço em sua totalidade

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 11/04/2026
Horário 05:00

A gente olha a cidade todos os dias. Vê um prédio novo surgir, um comércio fechar, um shopping lotado no fim de semana, uma praça vazia. À primeira vista, tudo parece apenas parte da paisagem, algo natural, quase automático. Mas será que é só isso? Na Geografia, aprendemos que não basta olhar. É preciso interpretar.
Inspirado nas reflexões trabalhadas em sala pelo professor Guilherme Claudino, e no pensamento de Milton Santos, proponho aqui um exercício simples, mas profundo: aprender a ler o mundo para além da aparência. Porque o que vemos — a forma — é apenas o ponto de partida.
Um shopping, por exemplo, não é apenas um prédio moderno e bem iluminado. Ele tem uma função: organizar o consumo, concentrar serviços, atrair fluxos de pessoas. Mas essa função não surgiu do nada. Ela é resultado de um processo — histórico, econômico, social — que transformou a cidade, os hábitos e as relações de trabalho. E tudo isso só faz sentido dentro de uma estrutura maior: o modo de produção capitalista, que organiza a vida urbana a partir da lógica do consumo, da circulação e da acumulação.
É nesse ponto que me aproximo do método geográfico de Milton Santos, ao qual tenho me atentado e buscado incorporar como forma de leitura do mundo: forma, função, processo e estrutura. Esses elementos não operam de maneira isolada, mas dialética. Como afirma Milton Santos, “o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações” (Santos, 2023, p. 63). Ou seja, não há como compreender a forma sem entender as ações, os processos e a estrutura que a produzem. Pensar assim muda tudo.
Quando olhamos para um bairro periférico, por exemplo, não podemos reduzir sua leitura à “falta de infraestrutura”. É preciso entender quais processos históricos levaram à sua formação, qual função ele cumpre na cidade e como a estrutura econômica e política produz e mantém essa desigualdade. O mesmo vale para o centro, para os espaços de lazer, para as áreas industriais. Nada está isolado.
E é justamente essa leitura mais ampla que nos permite pensar em sustentabilidade de forma mais séria. Porque não basta falar em soluções pontuais ou em mudanças de comportamento individual. Sustentabilidade, no sentido mais profundo, exige compreender as relações que organizam o espaço e questionar as estruturas que produzem desigualdade, exclusão e degradação ambiental.
Ler o mundo de forma dialética é, portanto, sair da superfície e mergulhar nas relações que sustentam aquilo que vemos. É entender que o espaço é resultado de conflitos, decisões, interesses e histórias acumuladas.
E talvez seja esse o papel mais importante da Geografia hoje: nos ensinar que o mundo não é dado — ele é produzido. E, por isso mesmo, pode ser transformado.

Referência sugerida 
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. 11. reimpr. São Paulo: Edusp, 2023.
 

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