Para sociólogos, machismo atrasa igualdade entre gêneros

Ainda que movimentos culturais em combate ao patriarcado tenham ganhado força, homens ainda são privilegiados, apontam especialistas

PRUDENTE - ANDRÉ ESTEVES

Data 14/07/2018
Horário 07:11
Arquivo - Heitor explica que patriarcado se fortaleceu na Idade Média
Arquivo - Heitor explica que patriarcado se fortaleceu na Idade Média

Amanhã, o calendário brasileiro lembra o Dia Nacional do Homem, data criada com o objetivo de conscientizar o público masculino sobre os cuidados com a sua saúde. No entanto, o dia também tem servido para fomentar debates a respeito da igualdade de gênero. Embora as discussões contemporâneas sobre o papel do homem em sociedade contribuam para romper com estigmas conservadores e patriarcais, sociólogos de Presidente Prudente acreditam que a população ainda precisa avançar no sentido de construir uma estrutura social menos misógina e machista.

O especialista da área, Renato Herbella, afirma que a quebra dos pensamentos retrógrados ainda não é tão significativa a ponto de representar uma mudança definitiva de paradigma. Em sua opinião, ainda que os movimentos feministas tenham ganhado força a partir da década de 1960 e principalmente com a virada do milênio, o núcleo social ainda é, de certa maneira, moldado para supervalorizar o homem. Nesse contexto, continuam elevados os níveis de abuso contra a mulher, que vão desde questões comportamentais até desigualdade social. Para mudar este cenário, o sociólogo vê a necessidade de mudar toda a dinâmica de relações sociais.

Renato reconhece que, dentro desta estrutura, há exceções. Neste caso, tratam-se de homens que, positivamente, desenvolvem a percepção de que a sua figura privilegiada “não faz sentido” e chega a ser “injusta”, o que pode estar atribuído às transformações sociais e à visibilidade dos movimentos culturais. Apesar de não acreditar que esta fatia se converta no todo a curto prazo, pondera que a educação pode ser o primeiro passo para a constituição de uma sociedade mais harmônica e mais democrática. “É fundamental que os dois gêneros sejam tratados de forma igual e tenham o mesmo valor”, menciona.

Lutas sociais e educação

O sociólogo Heitor Ribeiro se debruça sobre questões de gênero há 10 anos e, em uma análise histórica, resgata que o patriarcado está enraizado na sociedade desde o fim da Antiguidade, tendo se fortalecido muito na Idade Média por meio da Igreja e “sua ação de exaltar o homem e rebaixar a mulher”. Para ele, a educação é, sim, uma forma de combater o machismo que se estendeu até os tempos atuais, mas não a única, considerando que o ambiente de ensino pauta a dinâmica social quando ela já está ocorrendo, ou seja, depende de uma luta anterior para mostrar este novo viés, como é o caso do movimento feminista.

O sociólogo Wilson de Luces Fortes Machado também vê a escola como “aquela que reflete as transformações sociais”, portanto, é preciso que as mudanças abarquem antes a estrutura social de forma geral. “Não adianta a criança aprender na escola sobre igualdade de gênero e, ao chegar em casa, ver o pai espancando a mãe”, pontua. O docente aponta que as mobilizações devem continuar implacáveis no intuito de combater a opressão do pai em relação à filha, do patrão em relação à empregada, do marido em relação à esposa, entre outros, justamente para se tentar atingir a ideia de igualdade entre seres humanos. “Essa concepção é muito difícil de ser absorvida enquanto houver uma sociedade marcada pelas diferenças entre homens e mulheres”, pontua.

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