Pare de falar em “jornalismo profissional”

OPINIÃO - Matheus Teixeira

Data 30/09/2020
Horário 04:15

Pare, imediatamente, de usar a expressão neocontemporânea “jornalismo profissional”. Volta e meia, algumas palavras entram na moda, mas não deveriam. “Jornalismo profissional” é certamente uma dessas verborragias, o que me irrita profundamente! Você ousaria utilizar a expressão “medicina profissional” ou “médico profissional”? Certamente só há uma medicina, assim como só há um jornalismo possível. A “medicina amadora” nada mais é do que charlatanismo, crime.
Em 17 de junho de 2009, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que para ser jornalista não é preciso ter diploma – eu estava no último ano da faculdade, a seis meses de conquistar o “canudo”, imagine a decepção! Atualmente, na Câmara dos Deputados tramita um projeto de lei de autoria do deputado federal Alexandre Frota (PSDB/SP), que pretende reestabelecer a obrigatoriedade do diploma para exercício do jornalismo. Estou na torcida para que se torne lei.
Ainda que nada mude, creio piamente que o jornalismo só é capaz de ser exercido por profissional com diploma e, no máximo, pelo provisionado – quem conseguiu registro como profissional de jornalismo por ter experiência na área (o sistema de obtenção do registro precisa melhorar muito, já que não é tão minucioso, o que faz com que certas pessoas juntem “provas” de produção de conteúdo em um período de tempo e, assim, consigam obter facilmente o documento).
O registro de jornalista é obrigatório, embora iria deixar de sê-lo por meio de uma medida provisória de novembro de 2019 e que nem chegou a ser apreciada pelo Congresso Nacional (agora ela não existe mais). Já deu para sentir a bagunça que ocorre, não é? Há muitos interesses escusos envolvendo as leis para prática do jornalismo. A uma determinada pessoa pode ser interessante, por exemplo, que alguém “se torne jornalista” para que propague informações falsas embaladas como verdadeiras, já que seriam divulgadas por um “jornalista”.
Por essas e outras razões volto a repetir: pare de falar em “jornalismo profissional”. Ou é jornalismo ou não é. Ou é jornalismo ou é gente criando fake news e dando opiniões baseadas em crenças pessoais e não em fatos. Jornalismo ocorre em veículos de comunicação. Jornalismo pode estar em blogs ou redes sociais, claro, mas não significa que abrir uma conta em rede social ou blog e despejar conteúdo seja fazer jornalismo. Separe o joio do trigo, separe o jornalismo do invencionismo.
Jornalistas têm sido bastante atacados. Afinal, na mente de quem pratica um ataque isso é “justificado” por o jornalista mostrar coisas das quais essa pessoa discorda. Se a “medicina amadora” mata, o “jornalismo amador” também, porque cria a falsa sensação de que os verdadeiros jornalistas são “mentirosos”. E as pessoas não podem morrer, nem o jornalismo.
 

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