Permita se apaixonar

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 17/11/2020
Horário 06:00

Ao lado do instinto de sobrevivência, a paixão é para mim o motor humano mais sensacional. 
Ao mesmo tempo em que nos tira do chão, também nos faz cair de cara no mesmo chão com uma sutileza própria dos mais frios calculistas. 
E, claro, como a nossa vida é tudo, menos monótona, a paixão toma conta da nossa mente muito cedo. Lembro de uma viagem e do meu filho de 6 anos apaixonado pela primeira vez por uma garotinha que havia acabado de conhecer. Ele não fazia ideia do turbilhão de emoções que acontecia por dentro, mas tinha uma certeza: queria estar perto dela, cuidar. Vê-la chegar devia ser um evento e na hora de ir embora, como assim, separar?
E dias depois, quando finalmente se separaram, imagino a bagunça na cabecinha dele, aquela sensação de abandono, de sentir de volta aquela emoção que saía inesperadamente do corpo dele.
Porque a paixão inunda nosso corpo de sensações maravilhosas, mas cobra um preço alto, que é a reciprocidade. Se não houver, a paixão se transforma no pior dos pesadelos. A ilusão dá espaço para a desilusão e quem já sofreu disso sabe que não é um mero jogo de palavras. 
Que coisa louca e contraditória, né? Porque, normalmente, sabemos o que é melhor para nós mesmos, mas isso não acontece em meio à euforia da paixão. Respiramos e lá estamos nós afundados em meio à agonia de usar uma gangorra sozinho. Tem coisa mais solitária e angustiante que uma vontade não correspondida?
E é claro que a paixão que mais nos marca é a loucura por alguém, mas penso que este sentimento tão secular não pode se resumir às misérias ou sucessos do encontro com uma pessoa. Precisa ser mais e ignorar este poder é viver com menos, mesmo que por dentro haja muito. 
Quando a vida se resolve no mundo das paixões mais carnais, a ideia é ainda assim aproveitar a nossa imensa capacidade de fechar os olhos e sentir a delícia de estar vivo. 
E assim, eu vou me apaixonando. Vou recompondo pedaços que me tiraram e sinto de novo a montanha-russa de emoções da paixão. 
Escrever, ler, cuidar de alguém especial, renovar o casamento, participar mais da vida dos filhos, reencontrar amigos e cultivá-los, trabalhos manuais, plantar uma horta, um bom jardim, investir em um esporte que te deixe muito vivo, saber reconhecer mesmo a vida em cada respiração, como ouvi naquele filme bobo aí que não lembro o nome e que por sinal, amamos quando estamos apaixonados.
Enfim, eu quero acordar todo dia pensando na minha mais nova paixão. Os minutos que antecedem o encontro, o frio que corta todo corpo, a palpitação, a boca seca, o que dizer, o que sentir. Como não me encantar com toda a perfeição daquele momento? Quero demorar para esquecer, ter para sempre o entorpecente mais potente.
Experimente! Use a paixão para melhorar tudo! Enfim, permita se apaixonar!
 

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