Pesquisa analisa crianças com leishmaniose

Dos 63 casos que compuseram o levantamento, 19% foram submetidos à UTI pediátrica do Hospital Regional e um óbito foi registrado

PRUDENTE - ANDRÉ ESTEVES

Data 01/03/2017
Horário 12:04


Na região do oeste paulista, das 63 crianças com leishmaniose visceral encaminhadas ao HR (Hospital Regional) Doutor Domingos Leonardo Cerávolo entre 2006 e 2010, 19% delas foram submetidas à UTI (Unidade de Terapia Intensiva) pediátrica. Caso fossem internadas em um hospital sem esse tipo de estrutura, a chance de morte seria muito alta, afirma o docente Luiz Euribel Prestes Carneiro, um dos autores de um estudo interinstitucional realizado por pesquisadores da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Instituto Adolpho Lutz. O fato de possuir uma UTI pediátrica, bem como uma equipe multidisciplinar preparada para tal, torna o HR um centro de referência em termos de atendimento à leishmaniose visceral, o que é comprovado pelos números: da referida soma de internados, apenas uma criança morreu em decorrência da patologia, o que configura um dos menores índices de óbito do Brasil.

Conforme Luiz, outro fator que contribui para evitar a doença no oeste paulista é a celeridade com a qual os profissionais da saúde têm tratado o quadro clínico de crianças com suspeita de leishmaniose visceral. A princípio, as crianças chegavam ao HR com a doença em estágio avançado, pois havia um grande espaço de tempo entre a manifestação dos sintomas e o diagnóstico. "Os médicos achavam que poderia ser gripe, pneumonia, desnutrição ou verminose. Isso atrasava muito o diagnóstico. Hoje em dia, quando uma criança aparece com febre, aumento do fígado e baço e palidez, por exemplo, o profissional já faz o encaminhamento com uma hipótese diagnóstica de leishmaniose. Com isso, ao ser internada no hospital, a criança já tem acesso a uma equipe treinada que sabe identificar imediatamente a doença", expõe.

Intitulada "Características clínicas e distribuição espacial da leishmaniose visceral em crianças do Estado de São Paulo: um foco emergente de leishmaniose visceral no Brasil", a pesquisa ainda demonstra que, neste período, o maior número de pacientes em tratamento era proveniente Panorama e Tupi Paulista, com 21% e 16,5%, respectivamente; 9,6% sofreram com o reaparecimento da doença; a idade média das crianças internadas foi de 3,3 anos; o espaço entre o diagnóstico e o início de tratamento, 16 dias; e o tempo médio de internação hospitalar, por sua vez, 18 dias.

Luiz aponta que os municípios mencionados apresentam mais ocorrências em virtude da proximidade com Dracena, onde o foco de leishmaniose se deu inicialmente. "A propagação ocorre por continuidade dos municípios. Embora o mosquito-palha tenha uma autonomia de voo muito pequena, de 100 metros, a larva é transportada, por exemplo, em terra ou vaso de planta. Esse fator, somado à alta concentração de crianças nessas cidades e as condições ambientais das localidades, favorece, portanto, a dispersão da doença", explana.

 

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As condições ambientais favoráveis à proliferação da LVC foi objeto de estudo de outra tese orientada pelo docente e também noticiada por este diário. O estudo constatou que, de 2010 a 2015, Presidente Prudente acumulou 618 casos de cães com sorologia positiva para a doença, sendo que, deste total, o maior foco de ocorrências foi identificado nas zonas leste e oeste do município, devido à disposição de matéria orgânica em decomposição, fragmentos florestais, depósitos irregulares de lixo, bacias hidrográficas não canalizadas e animais abandonados. A defesa desta pesquisa foi sucedida pelo estudo do perfil epidemiológico das crianças internadas, diagnosticadas com leishmaniose e tratadas, que, por sua vez, será prosseguida com uma análise sobre a evolução clínica não apenas em crianças, como em adultos da região do oeste paulista.

Além de Luiz, estiveram envolvidos no trabalho sobre a doença em crianças: Patrícia Rodrigues Naufal Spir, do Departamento de Infectologia e Pediatria da Famepp (Faculdade de Medicina de Presidente Prudente); Aline Daisy, aluna de iniciação científica da Famepp; Rogério Giuffrida, da graduação e pós-graduação da Unoeste; além de Elivelton Silva Fonseca, da Unesp, e Lourdes Aparecida Zampieri D’Andrea, do Instituto Adolpho Lutz e Unesp. O estudo ganhou destaque em âmbito internacional e será publicado na revista especializada em saúde e doenças tropicais "Pathogens and Global Health" entre março e abril.

 

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