Pindorama e o mito da terra sem mal 

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 04/07/2021
Horário 04:30

Tupi or not tupi that  is the  question

Manifesto antrofágico.  
Oswald de Andrade, 1928.

Sento para escrever a crônica semanal, mas o meu cachorro não me deixa trabalhar. Ele me lembra que passei a semana inteira fora de casa e que chegou a hora dele brincar. Insistentemente, Toddy devolve o que restou da sua bolinha rasgada para eu lançá-la longe da mesa e ele buscar. E com uma energia incansável, o gesto se repete ao infinito, como se fosse uma grande novidade. Muito bem, Toddy... que descoberta! 
Quando retorno para o computador, a escrita toma outro rumo. Pensei na vida mais simples do que ela é e da chamada dos povos indígenas lá em Brasília para os mitos fundantes e a preservação de valores que realmente importam. 
Como todos sabem, o futuro das terras indígenas está nas mãos do STF (Supremo Tribunal Federal) a partir do posicionamento acerca do estabelecimento de um marco temporal para a demarcação dos territórios indígenas. Eu sei que o debate teve origem na decisão do próprio STF, em  2019, quando se definiu os limites da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol com base nas provas de que os indígenas já estavam naquela área na ocasião da promulgação da Constituição. Mas o caso em questão foi uma decisão com o objetivo de pacificar o conflito em Roraima.  
Na conjuntura atual, a aplicação geral da tese legitima as invasões, as expulsões e a violência contra os povos indígenas, assim como desencadeia a revisão de processos de demarcação concluídos com base em farta documentação existente antes de 1988,o que torna a discussão do princípio do marco temporal mais uma aberração da cambaleante nação brasileira. O Brasil merece muito mais do que isso. A diversidade cultural e a biodiversidade do Brasil estão entre as mais ricas do mundo. A consciência da deterioração, do cansaço e da enfermidade da terra não se reduz a uma agenda econômica. 
Para os Guarani, o Aguydjê ou paraíso significa bem aventurança, perfeição e vitória. A busca da “Terra sem mal” (Yvi Marã Ey) é uma constante e pode ser relacionada com a resistência e a luta das comunidades Mbyá Guaraní em contato com os colonizadores desde os tempos coloniais.  

Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju

(Pequeno “poema” em língua indígena de Couto Magalhães citado no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, 1928.  “Lua nova, ó lua nova, assopra em lembranças de mim, fazei com que  eu somente  ocupe o seu coração”).
 

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