O mercado da aquicultura no Brasil vive um momento de forte aceleração. Em uma década, a produção nacional de peixes de cultivo mais do que dobrou, posicionando o país em um lugar de destaque no mapa global. Para entender os fatores por trás desse crescimento e os próximos passos do setor, conversamos com o professor Dr. Omar Sabbag, especialista na área.
De acordo com o pesquisador, o país já ocupa o posto de quarto maior produtor mundial, impulsionado principalmente pelo fenômeno da tilapicultura, que hoje dita o ritmo da atividade em território nacional.
A soberania de uma única espécie é um dos traços mais marcantes da atividade no país. Segundo o Dr. Omar Sabbag, a tilápia é a engrenagem principal desse motor produtivo.
"Eu vejo a piscicultura cada vez mais expansiva. Hoje nós somos o quarto maior produtor mundial. Na verdade, nós estamos considerando hoje, principalmente a tilápia, como a maior espécie de cultivo no país, representando aproximadamente 68% da produção nacional", destaca o professor.
Apesar da posição de destaque global, o especialista aponta que o horizonte para o comércio exterior ainda é vasto e há muito espaço para o produto brasileiro cruzar fronteiras. "Com certeza, ainda tem muito mercado externo para consolidar, pensando nos acordos bilaterais, na importância do aspecto nutricional da tilápia e no crescimento em relação aos mercados compradores."
TECNOLOGIA E RECURSOS
NATURAIS: OS MOTORES
DO CRESCIMENTO
Dobrar a produção em apenas dez anos exige uma combinação de fatores estruturais e de mercado. Sabbag explica que o salto produtivo foi sustentado por uma tríade: incentivo de mercado, novos perfis de consumidores e, fundamentalmente, modernização técnica.
"Esse crescimento acelerado se deu em relação ao incentivo de mercado, novos consumidores — pensando no padrão de consumo — e também à questão tributária que, se por um lado às vezes é um entrave, por outro funciona como incentivo. Mas o avanço principal nessa década foi em relação à tecnologia existente nos principais estados produtores", pondera.
Além do ganho tecnológico, as condições geográficas do Brasil dão ao país uma vantagem competitiva natural e de difícil replicação em outras partes do mundo.
"O Brasil é o celeiro mundial em termos de produção de alimentos, e nada mais justo do que a tilápia acompanhar isso dentro da aquicultura. Nós temos recursos naturais em abundância, desde que trabalhados de forma sustentável, e isso consolida a atividade graças à imensa disponibilidade de rios que nós temos no país."
O DESAFIO DO CONSUMO INTERNO E
O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR
Se por um lado a produção vai de vento em polpa, por outro, o prato do brasileiro ainda recebe menos pescado do que o potencial do setor indica. O consumo interno é um dos nós que a cadeia produtiva ainda tenta desatar.
"Eu confesso que o nosso consumo poderia ser melhor", pontua Sabbag. "Hoje nós temos um padrão médio inferior a 3 quilos por habitante ao ano. É claro que isso necessita de um esforço mercadológico maior, mais relacionado a estratégias para aumentar o consumo da espécie."
Quando questionado se o bolso ou a busca por uma vida mais saudável tem determinado a escolha do consumidor no supermercado, o professor é categórico: o mercado atual é movido por uma via de mão dupla.
"Ambos. Tanto o preço competitivo em relação a outras proteínas quanto a questão dos novos comportamentos de mercado [influenciam]. Mas uma coisa é certa: o que o setor tiver para ofertar, nós teremos, evidentemente, mercados compradores", conclui o especialista.
Foto: Denise Queiroz