Em 8 de setembro de 1942, nasceu em Arapiranga, no interior da Bahia, Édima de Souza Mattos. Neste 11 de junho de 2026, foi embora antes do combinado e em paz: dormindo. Até seu último dia de vida estava na ativa, liderando atividades envolvendo a Unoeste (Universidade do Oeste Paulista) e o Ministério da Saúde. Foram mais de 60 anos dedicados ao ensino, dos 16 aos 83.
O legado que deixou é incomensurável e não se restringe à educação em todos os níveis. Também contempla a luta contra a discriminação racial, com ações e posicionamentos firmes. Deu o exemplo de que o negro pode chegar onde ele quiser, com doutorado na Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pós-doutorado na USP (Universidade de São Paulo).
No segmento da educação, surgiu seu engajamento na militância contra a discriminação, nos anos 1990, em Presidente Prudente. Visitou escolas para estimular os afrodescendentes a não desistirem dos estudos, num período em que o índice de evasão chegou a 68%.
Há quatro anos, em junho de 2022, esteve entre 14 mulheres homenageadas com o Prêmio Ruth de Souza, concedido pela Secretaria da Justiça e Cidadania, por meio do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo e com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do governo de São Paulo.
Em março deste ano, esteve em Brasília (DF) no evento do iDNASaúde (Instituto de Desenvolvimento Nacional da Aliança pela Saúde), que marcou mais uma conquista do Nats (Núcleo Avaliação de Tecnologia em Saúde) da Famepp (Faculdade de Medicina de Presidente Prudente).
Foi estabelecido novo acordo para emissão de PTCs (pareceres técnico-científicos) junto ao SUS (Sistema Único de Saúde), por meio de avaliação de dossiês técnico-científicos, para decidir se uma tecnologia (medicamento, dispositivo, procedimento, vacina, exame etc.) deve ser incorporada, alterada ou excluída do rol de serviços do SUS.
Édima Mattos teve atuação preponderante e decisiva para a Unoeste assinar a carta-convite junto ao Ministério da Saúde e à Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), que é o escritório regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde. Outro esforço estava centrado em estudos sobre anemia falciforme, doença negligenciada, prevalente em negros e também hereditária (passa dos pais para os filhos), caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos do sangue, causando anemia. Seu sonho era ver a implantação o Ambulatório de Anemia Falciforme no HR (Hospital Regional) Doutor Domingos Leonardo Cerávolo de Presidente Prudente.
Outra coordenação em pesquisa de relevância na área de saúde esteve voltada às mulheres privadas de liberdade na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista sobre DSSs (Determinantes Sociais e Saúde) em relação à saúde mental e sífilis, com recomendações de protocolos à Secretaria e Administração Penitenciária.
Na área de extensão, desenvolveu projetos voltados à ação cidadã de resgate do ser humano e projetos voltados à saúde de vulneráveis. Um dos projetos é sobre informática e cidadania em locais de acolhimento para promover sinergia de inclusão social, premiado pelo Enepe (Encontro Nacional de Ensino, Pesquisa e Extensão) de 2017.

Foto: Marketing Unoeste - Até seu último dia de vida, professora Édima estava na ativa
O nascimento de Édima em Arapiranga foi na época de exploração de ouro na cidade a 400 quilômetros de Salvador. Seu pai era o minerador João Francisco de Souza e sua mãe a dona de casa Adozinha Amélia de Oliveira Souza. Édima foi a primogênita de três filhos, sendo seus dois irmãos já falecidos.
Seus pais trocaram de interior: o baiano pelo paulista, atraídos pelo trabalho em lavouras de algodão. A menina tinha dois anos quando sua família mudou-se para Ribeirão dos Índios e, depois de três anos, foi para Presidente Bernardes, onde estudou até o terceiro ano do primário.
Quando tinha 10 anos, o destino foi Prudente. Os estudos continuaram na Escola Estadual Professor Adolpho Arruda Mello e no Instituto Educação “Fernando Costa”, onde fez o normal. Ao mesmo tempo, estudava no Centro de Cultural Brasil-Estados Unidos.
Aos 16 anos, lecionava inglês na Escola de Comércio Joaquim Murtinho. Sua primeira formação em nível superior foi na Faculdade de Letras, em Adamantina. Depois, fez Pedagogia na Faclepp (Faculdade de Artes Ciências, Letras e Educação), na Unoeste. Antes do mestrado e do doutorado, fez várias especializações.
Em 1970, casou-se com o contador bancário Eli Dolce Justo de Mattos. Tiveram três filhos e todos ingressaram no ensino superior aos 17 anos. Eduardo é engenheiro químico, casado com Lency; Elizangela é engenheira de alimentos; e Elaine é tabeliã. São vários netos.
Mesmo depois de seus três filhos adultos e formados, Édima contava ter passado pela dor do parto mais duas vezes. A primeira, quando fez a defesa pública de sua tese no doutorado em Letras, em 2011, na Unesp, no campus de Assis (SP).
Posteriormente, ao ingressar no pós-doutorado em uma das mais importantes instituições de ensino superior do país: a USP. Ostentar o título de doutor tem o valor social de atingir o mais alto degrau na formação acadêmica. Mas, para o negro e sua descendência, esse é um patamar ainda mais elevado.
O percurso é mais difícil para o negro, por razões históricas, culturais e socioeconômicas. Embora a maior parte da população brasileira seja afrodescendente (55,8%), apenas 16% dos 400 mil professores de universidades são dessa etnia. A professora Édima de Souza Mattos fez parte desse grupo minoritário.
Mas esse menos é mais, por se tratar de alguém que lutou pela valorização do negro, com destacada militância no cenário estadual desde 1988, ano do centenário da abolição da escravidão no Brasil. Uma luta de quem acreditava na construção de um mundo melhor, cuja atuação esteve centrada na educação.
Aposentada na rede estadual de ensino, se manteve ativa na rede particular, com mais de 35 anos de Unoeste. Além da Famepp/Unoeste, antes passou pela Faclepp, Fipp (Faculdade de Informática de Presidente Prudente) e Facopp (Faculdade de Comunicação Social de Presidente Prudente), que virou Escola de Comunicação e Estratégias Digitais.
Com atuação no ensino superior, buscou aprimoramento profissional e obtenção de titulações. Quando fez mestrado, deixava Assis às 17h30 para entrar na Unoeste às 19h. No doutorado, a luta não foi diferente. Muitas vezes, entre estudar e se alimentar, ficava com a primeira opção, não exatamente por escolha, mas por necessidade.
Ao defender a tese sobre a literatura e jornalismo de Eça de Queirós e se tornar doutora, Édima Mattos recebeu convite para ministrar oficina em Portugal, no Colóquio Internacional de Thormes, com o tema "Eça e o romance oitocentista: transformações cinematográficas e televisivas", em junho de 2016.