Profissional e pessoal são quase um só

OPINIÃO - Matheus Teixeira

Data 30/07/2020
Horário 04:11

Levante a mão quem nunca ouviu: “Neste serviço, você precisa separar a vida profissional da vida pessoal”; “Você não pode ficar trazendo os problemas do seu emprego para dentro de casa”. Aposto que não haverá sequer um leitor com a mão erguida. Embora sejam frases demasiadamente usadas, colocar a vida pessoal numa caixinha e fechá-la enquanto se está trabalhando, e vice-versa, sempre foi difícil. Num mundo hiperconectado, alguém consegue essa façanha?!
Não é só por causa do aumento das atividades de home office que essa discussão precisa ser levantada. Nos tempos ditos “normais”, é inconcebível viver num sistema binário no qual um elemento exclui o outro, como se o ser humano conseguisse virar a chavinha do “pessoal” para a do “profissional” num instante. Portanto, as complexidades individuais, das relações interpessoais e das regras do bom convívio em sociedade impedem essa divisão dicotômica.
Determinadas posturas tidas em âmbito profissional são um pouco diferentes daquelas adotadas no lar. No entanto, você consegue imaginar que um trabalhador antiético seja ético na vida privada? Ou que alguém que maltrate a própria família respeite os colegas de escritório? Caso o sujeito não sofra de dupla personalidade, psicopatia ou distúrbios dessa ordem, não dá.
Incorporando a tecnologia ao assunto, repare que ela reforça a fusão de “profissional” e “pessoal”. Em nossos WhatsApp particulares temos conversas de trabalho, inclusive nos fins de semana. Do mesmo modo, durante o expediente, ora usamos os grupos da “firma” para conversar sobre o dia a dia não corporativo. 
Temos dado, implicitamente ou não, racional ou irracionalmente, liberdade para quem quer que seja nos contatar a qualquer hora, para tratar de qualquer assunto. Não existe mais emprego com jornada de 40 ou 44 horas semanais, já que você deverá ficar disponível 24 horas por dia pelo seu smartphone, ainda que ninguém fale sobre isso, tampouco expresse-o no contrato trabalhista. Aliás, diga a um recrutador que você não tem smartphone; ele te dará um de presente ou eliminará você do processo seletivo?
Finalmente, aqui está a resposta à pergunta do primeiro parágrafo: não, num mundo hiperconectado não há mais como separar vida pessoal da profissional. Lazer absoluto tornou-se artigo de luxo, somos sufocados por notificações. É possível, entretanto, usar estratégicas que te blindem, porém, elas podem gerar atritos. Por exemplo, não responder a mensagem do patrão no domingo, embora seja um direito seu se não estiver de plantão, é capaz de transformar num desastre a sua vida, profissional e pessoal.
 

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