Protestantismo, liberdade e pandemia 

OPINIÃO - Saulo Marcos de Almeida

Data 13/04/2021
Horário 04:30

Embora se admita a Revolução Francesa como o mais conhecido apelo histórico à liberdade, reconhece-se que o tema em questão origina-se no legado criado pela cristandade ao declarar livre o homem chamado à comunhão com Deus por meio de Jesus Cristo. Essa herança caracterizou a ênfase ideológica do movimento reformado do século XVI: liberdade de consciência.
Por essa razão, Hegel interpretou a reforma protestante como um dos marcos decisivos na história da humanidade. Paul Tillich, teólogo protestante, viu no espírito do movimento (Princípio Protestante) o guardião contra as tentativas de tudo o que é finito e condicionado de usurpar o lugar do incondicional no pensar e no agir. 
Para o protestantismo, a liberdade é uma das mais importantes garantias da cidadania. Não há direito mais sagrado na Terra do que a liberdade civil, social e do pensamento. O homem é um ser histórico capaz não apenas de reagir ao ambiente, mas, sobretudo, responder ao mesmo. A reação natural se localiza na esfera do biológico, a resposta revela a dimensão histórica do ser humano. Existir, então, é projetar-se para fora de si na busca da liberdade.
O Antigo Testamento orienta a procura e manutenção de uma vida harmoniosa entre os seres humanos.  Resulta, então, o cuidado com o órfão, a viúva e o estrangeiro. Não se aceita como ideal de Deus a realidade da escravidão e, quaisquer que sejam os obstáculos que impeçam a autonomia humana, confrontam-se com as fortes aspirações de libertação divina. 
No Novo Testamento, a proclamação a verdade vos libertará (João 8.32) tem na redenção oferecida por Jesus a liberdade em seu significado mais poderoso, uma vez que Ele libertou toda a criação de seu mal maior - a escravidão do pecado e o poder da morte.
O apóstolo Paulo expõe a vida com Cristo como um existir em liberdade (Gálatas 5.13). Esta se apresenta na linguagem paulina como uma dádiva de Deus.   
Desde o Iluminismo, muitos foram os esforços para a libertação do homem. A conquista da autonomia era o objetivo maior no desenvolvimento da modernidade. É inegável a contribuição e sua relevância social à história humana: cura e/ou tratamento das doenças; emprego tecnológico nas tarefas árduas; a escravidão e sua abolição; igualdade e socialização dos direitos do ser humano. O homem, enfim, libertou-se das superstições e temores ancestrais que impediam o seu desenvolvimento. 
Por outro lado, deve-se levar em consideração as ambiguidades embutidas no decorrer desses processos e seus consequentes desdobramentos visto que, emergentes ameaças e novas servidões surgiram em meio à história recente do ser humano, resultando numa má compreensão do próprio sentido ético da liberdade. 
O protestantismo histórico acredita que a liberdade não é o exercício do individualismo – marca acentuada da atual sociedade. Compromete-se com Deus, o ser humano e a natureza na expressão concreta do amor - imperativo ético de alteridade, tolerância, justiça e paz! 
 

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