Que foi isto maquinista?

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 24/10/2021
Horário 05:00

Pontualmente 18 horas em Presidente Prudente. Lá ia eu em mais uma viagem para São Paulo. "Café com pão/ Café com pão/ Café com pão/ Virge Maria que foi isto maquinista?”, diria Manuel Bandeira para aquela pitoresca aventura sob o comando do maquinista da locomotiva que nos arrastava 738 quilômetros até a estação Júlio Prestes, em pleno centro nervoso da cidade de São Paulo.
Como que se curvasse em respeito à capital regional da antiga Alta Sorocabana, o comboio seguia lentamente em fila indiana até Espigão. Dava para avistar crianças correndo para acompanhar os vagões. Até mesmo algumas bicicletas conseguiam imprimir maior velocidade e cruzavam a linha férrea em trechos que os dormentes encontravam-se no nível das ruas, sem que a locomotiva oferecesse algum risco.
Aos poucos, a viagem ganhava ritmo. “Agora sim/ Café com pão/ Agora sim/ Café com pão”…e os passageiros sentiam-se mais esperançosos de logo alcançar seus destinos traçados pelas linhas tortas da linha férrea inaugurada nos idos da década de 1920. Construída nos divisores de água das micro-bacias, a viagem seguia por muitas curvas (mas muitas mesmo!). As curvas longas eram bem suaves e quase imperceptíveis. Mas as curvas curtas exigiam que o maquinista diminuísse a velocidade por que a linha férrea era feita com bitola curta e, por isso, não oferecia muito estabilidade para manobras mais ousadas. Daí começava tudo de novo…. “Café com pão/ Café com pão/ Café com pão”.
Depois de vencer a Serra de Botucatu, diminuíam as curvas e aumentavam as descidas. E o comboio parecia correr mais solto no meio de diversificadas paisagens vistas pela janela. "Passa ponte/ Passa poste/ Passa pasto/ Passa boi/ Passa boiada…Vou depressa/ Vou correndo/ Vou na toda/ Que só levo/ Pouca gente/ Pouca gente/ Pouca gente”….
Eu gostava de comprar o bilhete completo, o que me dava direito a um assento do lado da janela, mas também uma cabine com cama. Sim, porque a viagem durava 12 horas! Quando o trem chegava à estação Júlio Prestes já era meio-dia. Dava tempo de chegar à USP para assistir as aulas da pós-graduação até porque eu havia me alimentado no vagão-restaurante.
Agora estou voltando para Presidente Prudente de carro depois de uma semana intensa de trabalho em São Paulo. Infelizmente, não temos mais o apito do trem por causa de uma privatização muito mal feita que entregou a nossa histórica ferrovia para uma companhia sem interesse de investimentos por aqui. A viagem é solitária. Com poucas exceções, as cidades não estão nas margens da rodovia. A paisagem é muito monótona… me prenderam num canavial!

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